ago 8 2017

O abastecimento de alimentos em discussão


Em uma cerimônia formal viralizada pelas redes sociais foi anunciado o fim do ETSP - Entreposto Terminal de São Paulo (Ceagesp) - para dar lugar a um polo tecnológico no valorizadíssimo terreno na zona oeste paulistana. A ideia parece boa na perspectiva dos cidadãos da maior metrópole brasileira: 10 mil caminhões, do maior "hub" nacional de produtos hortícolas, deixariam de trafegar no tecido urbano diariamente, entre idas e vindas. Todas as metrópoles dinâmicas do mundo têm centros ou polos de alta tecnologia e a localização estratégica do terreno da Ceagesp próxima da Cidade Universitária parece a escolha certa no lugar certo.

Não se sabe muito bem o que virá das ideias colocadas, mas o que está claro é que a cinquentenária Ceagesp sairá de onde está. Os benefícios para a valorização exponencial dos terrenos urbanos e do trânsito estão claros. O entreposto sairá pela opção acordada entre o Ministério da Agricultura, governo municipal e a Ceagesp, com suas frutas e legumes, folhas, tubérculos e flores, peixes e carnes indo para algum lugar que não perturbe a cidade. No anúncio fúnebre e também festivo, do novo desconhecido e do velho moribundo apregoou-se que seis possíveis locais estão em análise para alocar a "nova Ceagesp".

É verdade que o modelo de Ceasa deixou de servir de "ponto de reunião de agentes de comercialização", conforme definição da época da sua fundação. Os mercados atacadistas de alimentos, sejam públicos ou privados, evoluíram em todo o mundo incorporando novas funções e usando a seu favor as facilidades e inovações trazidas pela informática, comunicações e logística de transportes.

Enquanto o ETSP e outras Ceasas brasileiras estacionaram em um modelo que representa uma 2ª geração de mercados atacadistas (logo após o modelo dos mercados municipais) e enfrentando os gigantes atacadistas e as redes de supermercados com estruturas próprias de distribuição, outros atacadistas na Europa e América Latina investiram pesado em inovações.

Ainda que tenham controle do capital privado, essas novas Centrais, denominadas de 3ª e 4ª geração, desempenham funções públicas no abastecimento alimentar, realizando tarefas como certificação, garantia de qualidade, rastreabilidade, controle de resíduos, regulação de preços, redução de perdas e desperdícios, informações nutricionais para consumidores, criação de marcas locais e valorização da gastronomia regional.

Com a urbanização acelerada, diversos mercados atacadistas modernos estão sendo criados nos grandes centros urbanos mundiais, como parte das soluções para abastecer um mundo urbano que terá 9,8 bilhões de pessoas em 2050, ao mesmo tempo que se estimula e promove o desenvolvimento rural local.

Todas as metrópoles do mundo, as grandes cidades, as cidades médias e as cidades polos regionais têm centrais de abastecimento, sejam públicas ou privadas. No Brasil são 74 centrais de abastecimento. Os permissionários sediados no ETSP comercializam anualmente 3,4 milhões de toneladas de frutas, legumes, verduras e tubérculos, girando apenas para estes produtos mais de R$ 8 bilhões, ou 25% da comercialização nacional. Para se ter uma ideia, o que passa pela Vila Leopoldina representa quase a metade do que a França vende anualmente destes produtos. Os produtos que chegam no ETSP e seguem para o resto do Brasil abastecem entre 5% dos alimentos das cidades do Sudeste e 50% das cidades no Centro Oeste e Norte do país, sendo que para isso trafegam milhares de quilômetros.

O que surpreende no anúncio da mudança, ou do fim do ETSP, é a ausência da informação fundamental sobre a organização do mercado que irá sucedê-lo. Existem pontos críticos que não foram detalhados e que poderão gerar problemas de desabastecimento e aumento de preços no curto prazo. Essas questões estão sendo obscurecidas pelo anúncio da grande oportunidade de negócio que se abre na região e pela necessidade de holofotes sobre o combalido Ministério da Agricultura e sobre o prefeito da capital.

A novela da mudança da Ceagesp está no ar há pelo menos 10 anos e desde então alguns grupos privados estão se mobilizando para apresentar os seus projetos. Há uma área próxima de Perus no Rodoanel que foi adquirida por um consórcio de empresas com apoio da prefeitura de São Paulo e que está buscando atrair o público atacadista, mas isso não garante que outros consórcios não irão apresentar novas propostas.

A questão é permitir um salto qualitativo no abastecimento da cidade e da região, disponibilizando para os interessados condições modernas de competição, seja um varejo de periferia ou um hipermercado. Os consumidores urbanos têm deixado claras suas preferências por produtos saudáveis com qualidade. A recente crise da carne brasileira demonstrou como o assunto é de alta sensibilidade para os consumidores.

Cada vez mais, o público quer saber onde, como e quem produziu as frutas e legumes, carnes, laticínios que estão em sua mesa. O sucesso dos orgânicos no Brasil é uma prova disto: nos últimos três anos o número de estabelecimentos que produzem orgânicos no Brasil aumentou 134%, e o faturamento atingiu a casa de R$ 3 bilhões por ano. Da mesma maneira, a valorização dos produtos "artesanais" e semiprocessados como alternativa aos produtos das gigantes do setor alimentar tem mudado progressivamente o perfil da cesta de consumo. Novos formatos de venda têm sido criados, valorizando os circuitos curtos e canais de venda direta por aplicativos em smartphones, representando uma oportunidade extraordinária para pequenos estabelecimentos e agricultores familiares.

O planejamento para viabilizar a oferta de alimentos com qualidade e diversificação tem sido adotado por grandes metrópoles como Paris e Barcelona. Nestas, há um eficiente processo de rastreabilidade e identificação da produção. Produtores rurais e suas regiões são reconhecidos e valorizados. É importante definir com urgência para onde irá nova Ceagesp, ou quem assumirá suas funções, mas o fundamental é saber qual o modelo de abastecimento que será desenhado para as próximas décadas.

Fonte: Valor Econômico