fev 22 2021

Pecuaristas do MT produzem e lucram mais criando gado sustentável na Amazônia


Quando assumiu a gestão das fazendas da família, em 2013, o contabilista Miguel Rech acreditou que seria fácil fazer dinheiro com a recria de gado em Nova Monte Verde, no norte de Mato Grosso, onde o clima da Amazônia cria condições privilegiadas para a atividade. O tempo, contudo, provou que ele estava equivocado.

“Eu pensava que sabia e daí eu vim para cá para tocar o negócio. Comecei primeiro repartindo o pasto e parti logo para a inseminação. Só comprava touros puros-sangues e sêmen dos mais caros possíveis. Mas daí, quando as vacas pariam, nós tínhamos bezerros bonitos e não tinha pasto”, resume o pecuarista.

Sem conseguir fazer vingar os bezerros nascidos na Fazenda Moleana, a família Rech via seu patrimônio encolher a cada ano. “O dinheiro foi acabando, e os meus filhos começaram a reclamar comigo. Eles investiram aqui confiando no pai, e o negócio estava indo para trás”, relata o pecuarista junto a um dos cochos onde hoje oferece suplementação mineral a 227 animais, distribuídos em quase 60 hectares de pastagens rotacionadas.

A taxa de lotação de cinco animais por hectare na safra 2019/2020 – 600% acima da média nacional – foi alcançada somente depois que Miguel reformou pastagens e repensou o modo de criar gado na fazenda, ainda em 2016. No ciclo seguinte, em 2017/2018, sua produtividade saltou de 5 arrobas para quase 40 arrobas por hectare.

“Começamos a olhar onde nós acertamos e onde nós erramos. Analisamos nossa situação financeira e capacidade de investimento e os gargalos que faziam com que nossa propriedade não tivesse resultado”, explica o produtor. A receita foi simples, segundo conta o agrônomo responsável pela reestruturação do negócio em parceria com o Sebrae, Murilo Guimarães.

Com custo inicial de R$ 3.200 por hectare, o investimento em pasto rotacionado gerou uma rentabilidade líquidade 12% ao pecuarista e margens de até R$ 1.900 por hectare. “Não inventamos a roda. Apenas colocamos em prática algo que já é antigo, mas pronto para ser aplicado”, relata o consultor e diretor da Campo S/A.

Há sete anos na região norte do Estado, a empresa presta consultoria para 150 pecuaristas e tem notado uma verdadeira transformação da atividade na Amazônia matogrossense.

“Acho que devo ter pegado exatamente esse final de etapa de uma pecuária extrativista e início de uma pecuária empresarial. Em 2014, a gente chegou e eu não podia falar de adubo, de cerca, porque os produtores reclamavam que tinham de ficar arrumando. Hoje, preciso falar de rentabilidade, taxa de juros e viabilidade econômica”, lembra Guimarães.

A despeito do maior interesse pela intensificação, o desmatamento na Amazônia disparou nos últimos dois anos, chegando a 11,1 mil quilômetros quadrados desmatados em 2020, a maior taxa desde 2008.

Com a pecuária sendo a principal atividade econômica empregada nessas áreas, os produtores já estabelecidos e em dia com a legislação ambiental relatam revolta. “Isso chateia todo mundo, porque a gente faz certo e espera que os outros também façam. Isso queima todo mundo”, afirma Rafael Sguissardi, que pratica a integração lavoura-pecuária com novilhas rubia gallega em Nova Canaã do Norte.

Mesmo atendendo aos rígidos protocolos socioambientais exigidos por grandes redes de varejo, Sguissardi, que também é engenheiro florestal, sente na pele o desconforto gerado pela crise ambiental enfrentada pelo Brasil nos últimos anos.“Hoje, dependendo do contexto, até me sinto mal de falar o que eu faço”, revela.

A confusão tem motivo, dado que a ocupação humana na região data da década de 1970, quando a ditadura militar incentivou a expansão da fronteira agrícola rumo à Amazônia. Foi nessa época que a família de Sguissardi deixou o Paraná rumo a Nova Canaã do Norte.

“A pecuária que era feita antigamente não tem nada a ver com a feita hoje em dia. Geralmente, era uma pecuária extensiva, de muito pouca tecnologia, em que o gado valia bastante e era tratado como uma poupança, não era o negócio principal. Hoje em dia, não. Minha família vive disso daqui e temos uma preocupação tremenda em fazer bem feito e fazer correto”, observa o pecuarista.

O impacto da associação generalizada da pecuária como desmatamento é direto. Mesmo com boas práticas, os pecuaristas da região enfrentam dificuldades para obter crédito ou certificações, o que atrasa o avanço dessas iniciativas, segundo conta o diretor da Campo S/A.

“Esses produtores, por receberem esse carimbo de ‘desmatador’, deixam de aproveitar uma oportunidade de mercado. A gente deixa de mostrar que ali tem uma carne carbono neutro, ou que poderia ter uma certificação diferente voltada para um mercado consumidor diferente”, ressalta Miguel, ao mencionar um de seus clientes, a Fazenda Bacaeri.

Adquirida na década de 1990, a propriedade tem como atividade principal o plantio da teca, madeira usada na fabricação de móveis, que tem ciclo de produção de duas a três décadas. “A princípio, a ideia era transformar tudo em floresta, porém, seria um investimento muito alto, com retorno de muito longo prazo, e a pecuária entrou para compor a atividade econômica da empresa”, conta o fazendeiro Fernando Passos.

Junto com a Embrapa e com a Universidade Federal do Mato Grosso, ele tem buscado quantificar suas emissões de carbono para receber a certificação de seu rebanho para produção de carne carbono neutro.

"A gente é uma exceção, sim, mas acho que é uma exceção que no Brasil tem crescido cada vez mais, principalmente nessa região. Como salto de desenvolvimento e melhoria das pastagens, em dez anos não seremos mais a exceção, mas a regra"
Fernando Passos, fazendeiro

As pastagens, juntamente com a nutrição animal, são fundamentais na pecuária sustentável na Amazônia, contribuindo não só para o aumento da produtividade, mas também para a fixação de carbono nessas propriedades.

“Isso faz com que a gente tenha sistemas muito mais equilibrados e uma leitura diferente em relação ao que a gente tem visto hoje no mundo, onde existe sempre um dedo apontado para a pecuária e acusando a atividade de ser a maior emissora”, destaca o pesquisador da Embrapa Agrossilvipastoril, Bruno Pedreira.

Segundo ele, um pasto bem manejado pode captar até 30 gramas de carbono por quilo de solo, o dobro do que apresentaria se estivesse em processo de degradação.

Quando a gente fala em conservação, muitas vezes se pensa na floresta em pé. Esse é apenas um dos recursos naturais. Nós também estamos o tempo todo trabalhando em cima do solo e da água, dois recursos que estão diretamente ligados à produção”, explica Eduardo Florence, consultor do Instituto Centro de Vida (ICV), instituição sem fins lucrativos que atua desde 1991 na disseminação de práticas agropecuárias sustentáveis em Mato Grosso.

“A gente percebe que a busca pela intensificação é, na verdade, uma busca por melhores práticas, para ter melhores rendimentos. E ela está acontecendo, ela é uma realidade. Até por uma questão de mercado, com custos cada vez maiores exigindo mais eficiência do produtor”, relata o consultor.

Da porteira para fora, contudo, os resultados financeiros gerados pelo aumento da produtividade e o potencial de lucro da sustentabilidade ainda não têm o mesmo impacto, uma vez que Mato Grosso ainda sofre com antigos problemas.

“O desmatamento hoje está ligado à ilegalidade e à especulação de terras. Isso é muito forte e puxa mesmo o desmatamento de forma drástica”, relata Florence, ao destacar que, enquanto 1 hectare de floresta nativa é negociado a partir de R$ 2 mil na região, uma fazenda já aberta e produzindo chega a valer R$ 40 mil.

"A concorrência é muito desleal. Por isso a gente precisa de políticas públicas de valorização da floresta. Porque estamos falando de um pedaço da história, que é produzir mais em menos área. Legal, esse é um caminho. Mas isso, sozinho, não vai fazer milagre"
Eduardo Florence, consultor do Instituto Centro de Vida (ICV)

Globo Rural