jan 5 2021

Avanço tecnológico facilita a rastreabilidade de alimentos


Em tempos em que o Brasil voltou a estar na mira do mercado internacional por causa do aumento do desmatamento, e que a pandemia reforçou a necessidade de garantir a qualidade e a sanidade dos alimentos oferecidos à população, a rastreabilidade e a garantia de origem dos produtos se firmaram como prioridade sobre a mesa. Afinal, o país é um dos maiores exportadores de grãos e carnes do mundo, entre muitos outros itens.

Na esteira dessas demandas, a tecnologia tem se mostrado fundamental para auxiliar produtores, indústrias e varejistas a cumprirem legislações (ver tabela ao lado), mas também a garantir transparência dentro e fora das cadeias. Na segmento de carnes, os avanços são flagrantes. A gigante JBS, por exemplo, terá apoio da startup paulista Ecotrace para lançar este ano uma plataforma de due diligence que marcará a evolução do monitoramento socioambiental de criadores de gado iniciado pela companhia há dez anos na Amazônia. Usando o blockchain, a JBS será capaz de monitorar inclusive seus fornecedores indiretos - produtores de bezerros e bois magros, que comercializam gado com as fazendas de engorda.

O objetivo da maior empresa de proteínas animais do mundo é que até 2025 toda a sua cadeia de fornecimento esteja livre de desmatamento ilegal, trabalho escravo e embargos ambientais, e que o sistema esteja pronto para ser usado também por outras empresas, na estratégia de garantir a preservação da Amazônia Legal - onde a JBS acompanha 60 mil fazendas e 450 mil quilômetros quadrados, área maior que a da Alemanha. Para auxiliar na reintegração de produtores com passivos ambientais, a empresa instalará “escritórios verdes” em suas unidades no bioma.

No ano passado, a Marfrig foi pioneira em anunciar o compromisso de rastrear de forma completa sua cadeia de fornecedores até 2025, dentro do projeto “Marfrig Verde +”. A iniciativa contempla um mapa de mitigação de risco que vai sobrepor as regiões típicas de produção de bezerros com áreas de vegetação nativa, cujos dados serão cruzados com os dos alertas de desmatamento e as áreas das propriedades rurais dos seus fornecedores diretos. Além disso, faz parte do pacote a criação de linhas de crédito subsidiadas para pecuaristas dispostos a investir na recuperação de pastagens e apoio aos que trilharem o caminho da regularização ambiental.

Dentro da Frigol - que tem cinco unidades frigoríficas e produz anualmente 160 mil toneladas de carne bovina e 20 mil toneladas de carne suína -, ferramentas tecnológicas de rastreabilidade estão em uso para dar maior transparência inclusive às relações rotineiras com os pecuaristas. Até o fim de 2021, todas as plantas da Frigol serão equipadas com câmeras que filmam e fotografam os abates e, graças a um algoritmo de visão computacional, permitem analisar carcaça a carcaça, explica Carlos Simões Corrêa, CFO da empresa.

A tecnologia já está disponível nas unidades de Lençóis Paulista (SP) e Água Azul do Norte (PA), e foi usada por produtores na pandemia. Com uma senha, eles têm acesso ao abate em tempo real pelo celular e a dados de rendimento dos animais. E a solução, também desenvolvida pela Ecotrace, atende, ainda, aos importadores. “Na rastreabilidade, precisamos dar um passo de cada vez. Construímos um alicerce no mercado interno desde 2018, nas cadeias de bovinos, aves e algodão, e agora estamos buscando ser homologados pelos nossos parceiros para atender os clientes deles também lá fora”, diz Flávio Redi, fundador da Ecotrace, que quer expandir os negócios para as cadeias de café e leite.

Nos hortifrútis, a PariPassu, unidade de negócios da holding GenesisGroup, acompanha o amadurecimento do mercado há mais de uma década. Em 2005, a companhia rastreava mil toneladas de frutas, verduras e legumes, e em 2020 chegou a 2,4 milhões. Giampaolo Buso, CEO da PariPassu, estima que 60% dos hortifrútis comercializados no varejo hoje sejam rastreados, refletindo o casamento de legislações específicas para o setor com o aumento da fiscalização.

“A consciência está crescendo e a maioria do setor busca ter o mínimo, que é informar de quem comprou e para quem vendeu”, diz Buso. As licenças mais simples da PariPassu custam R$ 100 por mês e, para o especialista, o aumento da demanda é questão de “ritmo e rotina”. “No FLV, é tudo muito manual. O produtor precisa se habituar a informar os dados. Os grandes já fazem isso porque facilita a gestão do negócio deles”. Vale lembrar que 2,5% da produção nacional de frutas, por exemplo, é exportada.

Na cadeia do algodão, a cuiabana ID-Cotton, que atua há quatro anos no mercado e tem um escritório na Flórida, nos EUA, comemora que 36% da produção brasileira de algodão da safra 2020/21, ou cerca de 5 milhões de fardos, será rastreada e certificada desde o campo, em parceria com a Bureau Veritas, usando a tecnologia de identificação por radiofrequência (RFID) da empresa, que substitui os leitores de códigos de barras convencionais por microchips. Antes disso, toda a gestão era feita por meio de etiquetas e processos manuais. Um dos principais ganhos, segundo Flávio Tarasoff, diretor da ID-Cotton, será a garantia de que os fardos embarcados para exportação estarão 100% condizentes com os pedidos.

Valor Econômico