dez 30 2020

Retrospectiva positiva do Mercado do boi gordo em 2020


Após 2019, com as fortes altas do boi gordo, com a demanda explosiva da China, 2020 começou com a expectativa de ser um ano mais calmo para o mercado.

Não é regra, aliás, regra é algo que não existe no mercado, e ponto. De toda forma, após anos de valorizações fortes, com mudança do patamar de preço, como foi 2019, esperava-se por um ano com menos potencial de alta. Não foi o que ocorreu.

Primeiro semestre

Com valorizações para a reposição desde a segunda metade de 2018, a cria está em um momento especialmente atrativo, o que gera retenção de fêmeas.

Como vacas e novilhas normalmente são enviadas para o gancho nos primeiros meses do ano, em função do calendário reprodutivo, em ano de retenção de fêmeas temos safras mais modestas do lado da oferta. Como 2020 não foi um ano de eufemismos, a oferta de gado caiu, e caiu bem.

Entre janeiro e setembro os abates de bovinos caíram 8,3% na comparação com o mesmo período de 2019, em boa medida pela menor oferta de vacas e novilhas mantidas para reprodução. Para vacas o recuo dos abates, na mesma comparação, foi de 18,4% e para novilhas de 11,4%, demonstrando o investimento em cria.

Em março a pandemia chegou ao Brasil e as medidas restritivas, com impacto sobre a economia, turvaram quaisquer expectativas. O mercado do gado terminado sentiu o solavanco, mas sem manutenção das quedas no mercado físico. Foram cerca de duas semanas mais pressionadas, depois a coisa voltou ao eixo, ao menos no mercado físico.

Enquanto isso, o mercado futuro despencou e não se recuperou por um bom tempo. Para ilustrar, no começo de março a cotação para outubro estava em torno de R$215,00/@, atingindo R$175,00/@ em meados do mesmo mês, e só atingiu o patamar anterior na segunda quinzena de junho.

Paralelamente, o mercado físico mais firme colaborava com valorizações da reposição. Enquanto isso, outro componente de custo do confinamento, o milho, ia ganhando tração, impulsionado pela demanda do setor de aves e suínos, com boas vendas para a China e um consumo doméstico relativamente resiliente.

Em resumo, as fêmeas retidas para a reprodução garantiram preços firmes no mercado físico, mesmo no final da safra. O mercado futuro, no entanto, não ganhou força até meados do ano, em meio a tanta incerteza, com a pandemia. Sem perspectivas de alta no mercado futuro, com boi magro e milho em alta, estava plantada uma entressafra sem grande volume de gado confinado.
Segundo semestre

Após um final de safra com poucas fêmeas e sem grande pressão de baixa, o cenário era de pandemia, mas com o auxílio emergencial e exportações colaborando, além de oferta enxuta.

O resto da história foi um mercado com valorizações ininterruptas até meados de novembro, com alta de 42,8%, em relação ao início do ano. Em meados de novembro, com a margem da indústria em patamares críticos, começaram testes mais fortes por pagamentos menores.

Em um primeiro momento, tais testes não encontraram boa oferta, mas com as exportações mais lentas em dezembro a disponibilidade um pouco maior de gado, as cotações seguiram pressionadas.

Expectativas

Ao que tudo indica sem o auxílio emergencial e com a sazonalidade típica de começo de ano, com demanda mais fraca, a tendência é de que janeiro seja um mês parado, uma vez que do lado da oferta, as duas primeiras semanas costumam ser lentas.

Passada essa provável acomodação, não esperamos uma safra de boa oferta em 2021, com provável continuação do movimento de investimento na cria, com retenção de fêmeas.

Outro ponto fundamental para a economia e, consequentemente, para a demanda por carne bovina, é a imunização da população. A velocidade da vacinação vai ajudar a definir o ritmo da recuperação econômica.

As expectativas são de que a China siga com boas compras, mas o câmbio deve modular o ritmo dos embarques, mais um ponto fundamental para acompanhamento.

Em resumo, o cenário deve ser de um mercado firme, em um patamar médio acima do observado em 2020, mas provavelmente sem força para altas como as dos últimos anos, pela economia convalescente e demanda chinesa mais estabilizada, embora ainda alta.

Ao longo das análises desta edição abordaremos cada aspecto com mais detalhes.

Hyberville Neto / Scot Consultoria