dez 29 2020

Novas tecnologias conferem eficiência à pecuária leiteira


A produção de leite no Brasil tem avançado e se profissionalizado nos últimos anos com um empurrão considerável do uso de novas tecnologias. E dados da Embrapa comprovam o movimento: enquanto o rebanho ordenhado caiu de 22,9 milhões de cabeças, em 2010, para 16,3 milhões em 2019, a produção por vaca aumentou de 1,3 mil para 2,1 mil litros por ano na comparação.

Um dos maiores produtores mundiais de leite, com quase 35 bilhões de litros por ano, o país é também um dos maiores consumidores, com média de 170 litros por habitante por ano, entre leite e derivados. O Ministério da Agricultura projeta que o valor bruto da produção (VBP) da cadeia será de R$ 41,3 bilhões em 2020, alta de 12,5% em relação a 2019, e crescerá mais 6,2% em 2021, para R$ 44,9 bilhões.

Para Paulo Martins, chefe-geral da Embrapa Gado de Leite, sem tecnologia esse avanço seria inviável. Ele lembra que, por muitos anos, a pecuária leiteira foi encarada como “atrasada” e o “patinho feio” do agronegócio, mas que esse retrato já está desbotado. Doutor em Economia, Martins diz que essa visão é uma herança da década de 1980 e precisa ficar no passado. “O tabelamento de preços dos alimentos foi o que retardou o avanço tecnológico do segmento. O leite pesava 8% na cesta do consumidor e, por isso, o governo segurava seus preços, o que teve efeitos nefastos para a cadeia”.

Ele afirma que na década de 1990 a situação começou a mudar, já que os produtores, que se tornaram competitivos à força, abriram os olhos para a necessidade de se modernizar. “Muita gente deixou a atividade, e os que ficaram foram se profissionalizando”, observa Martins. Pressão por eficiência e problemas de sucessão familiar nas fazendas aceleraram o processo.

Hoje, diz Renne Granato, gerente corporativo de negócios da cooperativa gaúcha Cotrijal, ser tecnificado na cadeia leiteira não significa simplesmente tirar o máximo de produção ao menor custo. “Um produtor tecnificado é o que se preocupa com bem-estar e nutrição animal, genética e gestão financeira”, afirma. Dos cerca de 7,8 mil associados da Cotrijal, 1,1 mil são produtores de leite.

Dentro dessas diretrizes, a Cotrijal firmou uma parceria em setembro de 2019 com a startup Cowmed, de Santa Maria (RS), que desenvolveu uma coleira de monitoramento capaz de detectar vacas no cio, doentes ou com qualquer alteração comportamental. Ao todo, 5% do rebanho dos cooperados - ou 2,1 mil vacas, de um total de 40 mil - já está sendo monitorado.

Leonardo Guedes, diretor de clientes da Cowmed, conta que o uso do equipamento por seis meses gera, em média, uma redução de 10% no descarte de vacas inaptas à produção leiteira. O valor do serviço é, em média, de R$ 15 por vaca por mês. Fundada em 2010, a empresa tem 200 clientes, em 13 Estados, e fatura R$ 2,5 milhões por ano. Em 2016, a Cowmed recebeu R$ 4 milhões da gestora KPTL. Investidores individuais injetaram outros R$ 5 milhões em 2019.

Outra que desponta na pecuária leiteira conectada é a agtech Onfarm, de Piracicaba (SP), que prevê faturar R$ 10 milhões em 2021 com a venda de uma solução para identificar problemas de mastite nos animais em lactação. A empresa desenvolveu um hardware, o SmartLab - um minilaboratório que fica na fazenda em comodato - e também provê testes de identificação de bactérias em 24 horas. Conforme Laerte Dagher Cassoli, CEO da OnFarm, um pequeno produtor pode contratar o serviço por R$ 190 por mês, tendo direito a oito testes.

Em 2020, a OnFarm monitorou quase 100 mil casos de mastite e reduziu em 54% o uso de antibióticos nas fazendas onde estão os animais. É possível diminuir a aplicação de medicamentos com a identificação de casos em que a bactéria não responde ao tratamento ou em episódios de cura espontânea do animal, por exemplo.

Em 2019, a OnFarm recebeu R$ 4 milhões do fundo 10b Livestock, gerido pela 10b Gestora de Recursos, integrante da SK Tarpon, e acelerou seu crescimento. Hoje, cobre 12 Estados, tem 965 clientes e monitora 1,5 mil fazendas no país. A meta para os próximos três anos é chegar a cerca de 15 mil propriedades no Brasil e crescer na Argentina, onde deverá desembarcar em janeiro. Depois virão Uruguai, México e Colômbia.

Para além das porteiras das fazendas, a revolução também se materializa no trabalho de agtechs como a catarinense Bionexus, que monitora a qualidade do leite cru em indústrias e propriedades rurais. A empresa recebeu investimento de R$ 400 mil da Rede de Investidores Anjo de Santa Catarina em 2019 e tem uma carteira de 15 clientes diretos, que atendem mais de 2,3 mil propriedades. Outra que quer ganhar espaço é a mineira VoluTech, que acompanha em tempo real os tanques das fazendas e permite aos laticínios acesso a todos os pontos de coleta. A empresa tem o Laticínios Porto Alegre como cliente e prevê crescer em 2021.

Fonte: Valor Economico