nov 6 2020

Mudança do clima com Biden não será nenhum refresco


Na quarta-feira (4), com o mundo mesmerizado pelo páreo eleitoral bizantino nos EUA, o país deixou formalmente o Acordo de Paris. De saída, Donald Trump cumpriu a promessa isolacionista e largou uma batata quente para Joe Biden descascar.

O democrata ambiciona dar uma guinada nas políticas ambientais dos EUA, investindo em energia limpa US$ 2 trilhões (cerca de R$ 11 tri, ou 1,5 vez o PIB do Brasil). Pisa fundo na direção do Green New Deal defendido pela esquerda de seu partido.

No Senado, o ressentimento republicano pode fulminar propostas de Biden. Além disso, ele verá as iniciativas questionadas na Suprema Corte com maioria conservadora e nos tribunais federais onde Trump instalou duas centenas de juízes.

Medidas para combater o aquecimento global costumam ser rotuladas como “socialistas” pela direita empedernida, pois envolvem incentivos e subsídios --por exemplo, para a energia solar. Enfrentando resistência em seu país, restará ao novo presidente perfilar-se como mocinho na cena internacional.

Um dia depois da eleição, o democrata mandou em rede social: “Hoje a administração Trump deixou oficialmente o Acordo do Clima de Paris. E em exatamente 77 dias a administração Biden vai voltar a ele”. Retornando à mesa, poderá justificar a contumaz lerdeza dos EUA nas negociações alegando que o antecessor republicano atrapalhou tudo.

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Biden, assim como outros governantes de países ricos que arrastam os pés nas tratativas globais, terão alvo fácil para abater na próxima cúpula, dentro de um ano, em Glasgow: Jair Bolsonaro. Será irresistível disparar contra um presidente que nega a mudança climática, incentiva a destruição da Amazônia e ainda se declara para Trump.

O brasileiro levará na bagagem coleção de más notícias. A primeira saiu nesta sexta-feira (6): o país descumprirá meta de reduzir sua contribuição nacional para desequilibrar o clima do planeta, segundo o Sistema de Estimativas de Emissões de Gases do Efeito Estufa (Seeg).

Pelos cálculos dessa iniciativa, que reúne 56 organizações, o Brasil lançou 2,2 bilhões de toneladas de CO2 (GtCO2eq) na atmosfera em 2019, 10% mais que no ano anterior. Descontado o carbono que matas reabsorvem, a emissão líquida foi 1,6 GtCO2eq, acima da 1,3 GtCO2eq com que se comprometeu em Paris como objetivo para 2020 (e a emissão vai aumentar de novo neste ano, como se verá a seguir).

O grosso da poluição climática brasileira resulta do desmatamento da floresta amazônica, 44% do total de CO2. Se incluídos os 28% da pecuária e da agricultura, chega-se a 72% de contribuição do agronegócio para desarranjar o clima planetário --embora o setor produza só 21% do PIB.

As emissões aumentaram, em resumo, porque a devastação disparou no primeiro ano de Bolsonaro, à taxa de 34,4% sobre o ano anterior. Atingiu 10.129 km2, maior área destruída desde 2008.

Dessa estatística anual virá também a segunda má nova do Brasil para o mundo: em 2020, o desmatamento terá saltado de novo, para algo como 13.000 km2, cifra que o Planalto deverá anunciar nos próximos dias ou semanas, se cumprir o calendário usual.

O Brasil passou da 6ª para a 5ª posição como maior poluidor do clima mundial, deixando para trás a Indonésia. Os quatro primeiros são China, EUA, Índia e Rússia.

A diferença: no quarteto campeão, 2/3 das emissões de carbono procedem dos setores de energia e indústria, que geram empregos e desenvolvimento. Por aqui, o desmatamento só beneficia grileiros, pecuaristas, madeireiros e garimpeiros ilegais.?

Fonte: Folha de São Paulo