out 30 2020

“Minha dúvida é como matar boi ano que vem”, diz pecuarista de Mato Grosso do Sul


O mercado do boi parece não ter limites. Os preços são históricos ao produtor e as exportações de carne bovina devem ser recorde nesse ano. No entanto, o cenário não é claro para o pecuarista, como é para o agricultor de grãos que praticamente tem boa parte de sua safra 2020/2021 já vendida e muitos negociando a seguinte.

Na pecuária o quadro é outro, embora 2020 venha sendo considerado um ano sem precedentes na história recente da pecuária, segundo o produtor Nedson Rodrigues Pereira, da fazenda Cachoeirão, no município de Bandeirantes (MS). Pereira termina 2 mil bovinos, por ano. Os custos da atividade e a relação de troca têm assustado os produtores.

“A conta certa deve ser feita sobre o valor do bezerro, comprado dois anos atrás, e que hoje está supervalorizado. Quem foi eficiente, realmente ganhou dinheiro este ano. Minha dúvida é como matar boi ano que vem. Tudo vai estar mais caro”, diz Pereira, que também é o presidente do Associação Sul-mato-grossense de Produtores de Novilho Precoce (ASPNP).

Seguindo a linha de raciocínio de Pereira, só com a alta do bezerro, o produtor ganhou 91,5%, fazendo a comparação do preço do animal, a R$ 1.221,22 (29/10/2018), e a atual cotação de R$ 2.338,76 (29/10/2020), de acordo com o Indicador do bezerro Esalq/BM&FBovespa, do Centro de Estudos Avançados em Economia Aplicada (Cepea), de Piracicaba (SP), com base de preços em Mato Grosso do Sul.

O temor de Pereira para o próximo ano, sobre custos e relação de troca, é também partilhado pelo médico veterinário José Abel e Silva Júnior, gestor de pecuária da BSB Agropecuária, no município de Jussara (GO).

“A gente está muito preocupado é com 2021. Para este ano o saldo é positivo, mas para o próximo está muito complicado. Nessa semana tive de fazer uma reunião com os fornecedores de grãos da fazenda. O plano é não deixar nada faltar, mas vai ser muito difícil”, diz Silva Júnior.

Trator só para 2021

As indefinições de cenário, vistas pelo produtor, não são somente relativas ao preço do bezerro, dos fertilizantes para o pasto, ou do milho e do farelo de soja (click nos links). Toda a sorte de insumo que se imaginar para a fazenda também está faltando ou ficou muito mais caro.

“Só para se ter uma ideia, eu fui comprar arame na revenda. Não tinha o que eu queria. Havia um rolo de um produto de segunda linha que antes custava R$ 350 e que hoje está em R$ 700”, diz Pereira.

Em outra ocasião recente, o pecuarista conta estava cogitando a ideia de trocar de trator, mas os planos minguaram. “Disseram que havia uma fila de espera de cerca de quatro a cinco meses e aí desisti da ideia”, afirma.

De acordo com ele, todas essas dificuldades dão sinais de que o próximo ano não será fácil. Daí a preocupação com a gestão do seu negócio. “Os insumos estão dobrando de valor e, certamente, no próximo ano, a arroba do boi não estará nos atuais patamares de preço para compensar todas as altas. O produtor vai ter de rebolar muito para fechar suas contas”, diz Pereira.

Dólar nas alturas

Preços altos em toda a cadeia tem um denominador que, neste caso, é o dólar que a cada dia fica mais valorizado perante o real. Nesta quinta-feira (29/10) a moeda fechou a R$ 5,78. Para a médica veterinária Lygia Pimentel, economista e CEO da consultoria Agrifatto, de São Paulo (SP), cada movimento de alta da moeda americana influencia imediatamente as compras de boi pelos frigoríficos, o que, acaba influenciando na elevação do preço do boi gordo.

“Na quarta-feira, 28/10, vários países europeus anunciaram um novo lockdown. Na sequência, o dólar disparou e triscou em R$ 5,80. Na mesma hora, os grandes frigoríficos abriram compra de boi a R$ 280”, diz Pimentel.

De acordo com a executiva, está difícil saber até onde pode ir a arroba ou mesmo o preço de insumos, mas ela arrisca um palpite: todas as altas, daqui para frente, devem ser muito bem sustentadas pela valorização do dólar. “Se o preço do dólar continuar sustentado, podemos ver preços novos”, diz Pimentel.

Isso significa que o pecuarista tem de fazer dever de casa nos trinques, comprando muito bem os insumos, planejando e fazendo as contas para passar por 2021 sem sobressaltos.

Fonte: Portal DBO