nov 3 2020

A terceira onda da pecuária de corte no Brasil


A evolução da pecuária de corte brasileira esteve sempre calcada em ativos estratégicos encontrados no país (condições climáticas favoráveis, disponibilidade de terras a preços baixos, oferta abundante de mão de obra, tecnologia de produção adaptada às condições do país, entre outros), o que determinou, de certa forma, o impulso da competitividade deste setor produtivo. Apesar dessa condição favorável, em um passado não muito distante o contexto era de escassez de carne bovina, chegando-se a importar até carne suspeita de estar contaminada por radioatividade. A cadeia foi então estimulada a aumentar a produção, respondendo positivamente com a missão cumprida. Esta foi a primeira onda da pecuária de corte.

Logo depois, o foco mudou e o sistema produtivo passou a visar a produtividade, já que a continuidade da proposta de aumento horizontal da produção era insustentável; afinal, há limites territoriais a limitá-la. Iniciou-se, então, a segunda onda. A cadeia foi estimulada a focar na produtividade, hoje reconhecida. O modelo de produção pecuária no Brasil passou a priorizar tecnologias mais intensivas em capital - as chamadas tecnologias “poupa-terra”, com melhor desempenho técnico e econômico, e que geraram significativos ganhos de produtividade. Em 1995, iniciou-se o processo de recuo no uso de terras para pastagens, dando espaço às lavouras e áreas de preservação ambiental.

Integração de Lavoura, Pecuária e Floresta têm alta probabilidade de mais do que dobrar sua área atual até 2040
A produção pecuária brasileira se dá predominantemente a pasto e preservação ambiental e produção de carne não são excludentes - afirmação facilmente verificável pelo aumento significativo das matas naturais, ao mesmo passo que se verificou aumento da produtividade da pecuária.

Dentre as soluções tecnológicas “poupa-terra” capazes de diminuir os impactos ambientais causados pela atividade pecuária e economicamente viáveis utilizadas nesse período, destacam-se os sistemas integrados de produção, lançamento de novas forrageiras, melhoramento genético do rebanho, manejo e recuperação de pastagens, suplementação alimentar, boas práticas de produção, produção de novilho precoce, entre outras.

Entretanto, na última década houve um movimento crescente de deterioração dos já mencionados ativos estratégicos encontrados no Brasil, decorrente de uma forte pressão de custos, que por sua vez deriva de um grande aumento da remuneração e da escassez do fator de produção, mão de obra, importante valorização das terras e crescentes restrições socioambientais.

Essa deterioração remete ao surgimento de uma terceira onda para a pecuária de corte nos próximos 20 anos. O estudo elaborado pelo Centro de Inteligência da Carne Bovina (CiCarne) da Embrapa, em parceria com Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento (Mapa), aponta para uma nova realidade na produção pecuária, tecnificada, intensiva, de ciclo curto, com padronização de carcaças e fluxo contínuo de produção para atender mercados de valor agregado, sinalizando ser este o modelo predominante nas próximas décadas.

Os sistemas de Integração Lavoura-Pecuária-Floresta (ILPF) têm alta probabilidade de mais do que dobrarem sua área atual até 2040, dada sua lucratividade e apelo ambiental. Da forma como é organizado, é possível melhorar a rentabilidade da propriedade e ainda cuidar do meio ambiente. A maior profissionalização da pecuária, a evolução do mercado madeireiro e de celulose, concomitante à pressão dos consumidores pelas questões ambientais e à racionalização do uso de terra serão importantes propulsores para que este evento se materialize.


A adoção do sistema ILPF, o melhor aporte nutricional aos bovinos e a recuperação de áreas degradadas pela pecuária no passado auxiliarão na amenização das emissões de gases de efeito estufa pela pecuária de corte em 2040. Esta preocupação internacional com o meio ambiente ultrapassa a discussão técnica e pressiona fortemente os interesses comerciais brasileiros.

O custo de aquisição, implantação e uso de tecnologias “poupa-terra” dificultam a sua adoção, mas acredita-se que a maior produtividade conseguida com a intensificação da produção pecuária levará maior rapidez aos ciclos pecuários, reduzindo a emissão de gases de efeito estufa por quilo de carne produzida no Brasil, consumida aqui e cada vez mais no mundo todo.

Um outro modelo de sistema intensivo de pecuária de corte que ganhará força, principalmente no Centro-Oeste, é a integração com a cadeia produtiva de etanol de milho. O modelo fomenta a verticalização da produção primária, transformando milho em uma fonte de energia limpa, além do estímulo que os coprodutos do processo produtivo trazem à produção de proteína animal, com a oportunidade de intensificação da produção pecuária e disponibilização de novas áreas para o plantio de grãos, em um círculo virtuoso de desenvolvimento econômico e social de forma sustentável. Traz também uma nova perspectiva para os reflorestadores, com a demanda de biomassa para geração de vapor e cogeração de energia, desenvolvendo um novo “cluster” de produção nas terras marginais de baixa fertilidade.

A pecuária de corte está diante de uma grande oportunidade de crescimento nas próximas décadas, mas, para que o setor consiga aproveitar esse momento, deverá superar alguns desafios importantes, como aumentar a produtividade, preservar o meio ambiente, o bem-estar animal, implantar a rastreabilidade de ponta a ponta na cadeia de produção, garantir a qualidade e segurança dos produtos finais, contribuir para a inclusão social e responder aos questionamentos dos formadores da opinião pública, minimizando preconceitos e desinformações instaladas na comunidade acadêmica e em organismos multilaterais.


Se a missão for cumprida, novamente surfaremos na crista da terceira onda. Ocuparemos espaço no cenário internacional, exportando desde genética a produtos altamente especializados e de elevado valor agregado. Seremos uma pecuária altamente tecnificada, profissional, competitiva e uma referência global não só pelo gigantismo, mas também por sua tecnologia e qualidade.

Fonte: Valor Economico