out 18 2020

A pecuária ecologicamente sustentável


Há quase um quarto de século, escrevi em parceria com Sergio Lazzarini, meu filho mais velho, e Fabio Santomauro Pismel um artigo que foi publicado no “Estado de São Paulo”, que versava sobre as necessidades de se imprimir mudanças radicais no processo de produção e comercialização da carne bovina brasileira. Dissemos em 1996: “O gado que fazia parte dos estoques de comerciantes (ávidos por especulação) está passando para o estoque dos verdadeiros produtores, o que, a longo prazo, deverá gerar ganhos de produtividade no rebanho brasileiro”.

E foi o que efetivamente acabou acontecendo. Mudanças radicais foram adotadas no processo de produção. Raças bovinas europeias, outrora introduzidas nos Pampas Gaúchos – especialmente aberdeen angus – foram sendo melhoradas e espalhadas pelo Brasil Central, mediante cruzamento com a raça nelore. O nelore, base do nosso rebanho, evoluiu também, no mesmo período, de forma espetacular. A qualidade da carne melhorou muito e conseguimos, em poucos anos, elevar consideravelmente a produtividade geral de grande parte do rebanho.

Diferentemente de outros setores da economia brasileira, a pecuária avança com rapidez nesse processo de melhoria contínua da produtividade e geração de valor para toda a cadeia produtiva – em especial, para os consumidores, que têm mais qualidade a preços mais justos.

Graças a esse trabalho, sem praticamente intervenção ou ajuda governamental, conseguiu-se ocupar, em pouco tempo, o espaço deixado pela pecuária argentina que, ainda hoje, caminha na contramão da história. Lá, há desânimo generalizado no campo. Pecuaristas em terras de grande qualidade, como na Província de Buenos Aires, trocaram suas atividades pela produção de grãos. Com isso, a vantagem relativa do país vizinho em produzir carne de grande qualidade esvaiu-se, sobrando tão-somente alguns nichos para atender mercados aos mais exigentes.

Dessa forma, abriu-se uma oportunidade imensa para os produtores brasileiros. E eles estão aproveitando. Apesar das dificuldades, devido a fatores climáticos e outros, a produção de carne de qualidade superior avança, graças ao trabalho extraordinário de abnegados pecuaristas.

Por esse motivo é preciso levar ao conhecimento dos consumidores brasileiros a pujança do setor agropecuário, que envolve toda uma cadeia de produção e distribuição. Esse setor, que tem contribuído para o aumento do PIB, como hoje se verifica, recebe críticas não fundamentadas de setores radicais – ambientalistas e artistas – que sugerem substituir o consumo de carnes vermelhas em razão de mudanças climáticas provocadas pelo desmatamento.

Esses grupos, mal informados, desconhecem a real dificuldade de se produzir carne de alta qualidade no Brasil. Parecem ignorar que isso envolve investimentos maciços em genética, adubação contínua de pastagens, produção de silagens, divisão de pastos, suplementação mineral, entre outras atividades. Não sabem, por exemplo, que hoje está em grande evolução a IPFL (Integração Pecuária, Floresta e Lavoura), programa criado pela Embrapa, e muito bem defendido pela ministra da Agricultura e Pecuária, Tereza Cristina. A pecuária não é responsável pelas queimadas. Há que se buscar os verdadeiros culpados e, processá-los criminalmente. O resto é conversa para boi dormir.

Estamos já exportando carne para os EUA. Importante mercado e referência mundial. Em breve estaremos também presentes em outros mercados mais sofisticados, como o japonês, o que permitirá valorização permanente e reconhecimento ao trabalho executado pelos nossos produtores.

A tecnologia de ponta na produção pecuária deve-se colocar também a serviço da sustentabilidade. Sob esse aspecto, deve-se procurar maximizar produtividade, sem agressões ao meio ambiente ao contrário. Esse tem sido o grande paradigma da produção pecuária brasileira: foco permanente em produtividade e melhoria continua da qualidade. O avanço é inexorável.

Fonte: O Estado de São Paulo