out 9 2020

Preços altos e falta de animais para abate pressionam pecuária de corte


A supervalorização dos preços do boi gordo e principalmente do bezerro atingiu seu ápice esta semana. Com dificuldades para encontrar animais para abate, os frigoríficos do Mato Grosso, principal Estado produtor de carne bovina do País, começaram a conceder férias coletivas dos seus funcionários. A informação é do Instituto Mato-grossense de Economia Agropecuária (Imea) que, em seu boletim de conjuntura econômica, arma que "apesar de outubro ser um dos maiores giros de confinamento e possibilitar a maior oferta de animais, o volume esperado ainda é aquém da demanda" no Estado.

O baixo nascimento de bezerros em 2017/2018 e os efeitos da pandemia de Covid-19 sobre a pecuária completam este cenário atípico. Se em fevereiro as escalas de abate no Estado atingiram a máxima do ano, de 7,05 dias, em março, com o início das medidas de isolamento social no Brasil e em outros países, houve queda de 17,24%, para 5,84 dias, atingindo a mínima de 5,22 dias em abril.

O efeito colateral no mercado tornou-se inevitável. Na última semana, as cotações da arroba do boi gordo se mantiveram em alta - com preços entre R$ 250 e R$ 260- no estado de São Paulo, o que impactou ainda mais os negócios da carne bovina. "Ninguém imaginava que as cotações da arroba do boi gordo e do preço do bezerro, estivessem tão valorizadas neste ano", disse o pecuarista Rafael Costa, lembrando que no nal de 2019, a arroba do boi gordo estava com preço médio de R$ 230. Já o bezerro, pela cotação da Esalq/MM&F Bovespa, gira em torno de R$ 2,3 mil.

Além disso, as exportações de carne bovina cresceram, principalmente durante o período da pandemia do novo coronavírus, sendo o mercado chinês responsável por 62,4% da compra do produto brasileiro.

Rafael, que é pecuarista do município de Novo Horizonte, possui 3.900 cabeças de gado em confinamento e está com a perspectiva de ampliar o negócio para o abate de 9 mil cabeças de gado para o ano de 2021. A maior parte da produção bovina de Rafael tem como destino de comercialização a exportação. "O Brasil vem batendo recorde de exportação de carne bovina e os frigoríficos não estão conseguindo suprir toda essa demanda", destaca.

Na avaliação de outro pecuarista, Augusto Cavalin, de Fernandópolis, prevaleceu questão da oferta e da procura com relação aos bezerros, que não estão sendo encontrados com facilidade no mercado. "Pela primeira vez, vejo preços tão altos para a comercialização de bezerros. Em alguns leilões de gado que participei, os bezerros chegaram a ser vendidos por até R$ 3 mil, um aumento de 50% em comparação ao ano passado", diz Augusto.

A explicação para a falta de reposição de animais jovens no mercado, segundo Augusto, é reexo de anos anteriores, quando muitas fêmeas acabaram no abate e com isso a oferta de bezerros diminuiu. O pecuarista, que trabalha com a cria, recria e engorda de gado, garante que o mercado está melhorando para os produtores e "quem tem novilha ou novilho, segura os animais para conseguir melhores preços".

A precocidade dos animais é requisito para a carne de maior qualidade que chega ao consumidor nal. Ou seja, animais mais jovens, possuem mercado garantido, principalmente a China, que exige animais precoces. O presidente da Associação Paulista de Criadores da Raça Angus, Renato Ramires Júnior, disse que é grande a busca de criadores, por animais mais jovens.

Renato, que também é criador de touros da raça Angus, para melhoramento genético de animais, comenta que o mercado da pecuária de corte este ano foi muito positivo, sem nenhum problema, inclusive com quarentena imposta pela pandemia da Covid-19. "É um fato, hoje não tenho mais animais, todos foram comercializados, sendo que nesta mesma época, em anos anteriores, ainda tínhamos muita oferta de touros", arma Renato.

Insumos e estiagem

Se por um lado está faltando bovinos, por outro também falta pastagem para o gado do Noroeste Paulista, um aspecto negativo para o pecuarista. "Na minha propriedade rural não chove há mais de seis meses e o trato com a alimentação sai muito caro para o produtor", diz o pecuarista de Rio Preto, Osmair Guareschi.

Na análise de Osmair, ele lembrou que com a alta do dólar, os insumos e alimentos como o milho para a criação, pesam para a conta do pecuarista. "Esta semana mesmo fechei a venda a R$ 260 pela arroba do boi. Mas quando a gente faz a conta, com todos os gastos com os animais, 20 arrobas acabam sendo 14 arrobas", avaliou.

A estiagem também prejudicou muito a capacidade de pasto, segundo Rafael Costa, e "muitas vezes falta maior estratégia para lidar com alimentação para o gado". Rafael acredita que mesmo o preço da arroba do boi com reajustes semanais, todo o gasto que o pecuarista tem acaba diminuindo o lucro da propriedade.

Planejamento evita perda

Um planejamento adequado ao número de animais que serão confinados na propriedade rural e os insumos utilizados para a alimentação do rebanho podem fazer a diferença para o pecuarista, de acordo com análise do zootecnista Maurício Lerro, que presta serviços de consultoria em confinamento de bovinos. "A seca ocorre todos os anos, e é preciso se antecipar, fazer o planejamento", explica Maurício.

Conforme o consultor, 60% da rentabilidade do confinamento de gado está na compra dos insumos. Por isso é uma decisão estratégica. "Se o produtor antecipa a compra destes insumos, ele vai garantir maior lucro do negócio, já que na época da entressafra, os custos destes produtos são maiores", diz Maurício. Ele também aconselha o pecuarista a ter um local para estocar os insumos e um silo para guardar o capim volumoso.

O mercado consumidor de carne bovina é cada vez mais exigente na qualidade e procedência daquilo que vai adquirir, de acordo com Maurício. "Eu sempre oriento o pecuarista e produzir a carne que ele deseja na sua mesa, ou seja, de um animal jovem e bem acabado", diz.

Para o veterinário Ricardo Santos Silva, da Coordenadoria de Desenvolvimento Rural Sustentável (CDRS), unidade de Catanduva, agora é o momento do pecuarista se organizar e produzir bezerros para recria, que são os animais mais procurados no mercado. "É importante car atento na terminação do animal em confinamento, além de o produtor buscar um gasto menor com o rebanho", avalia Ricardo. (CC)

Exportações de carne em alta

A Associação Brasileira de Frigoríficos (Abrafrigo) e o Ministério do Desenvolvimento, Indústria e Comércio Exterior informaram que houve queda comparativa nos preços obtidos pela carne bovina brasileira no exterior neste ano. As exportações totais de carne bovina em setembro atingiram a 166.366 toneladas, num aumento de 2% sobre setembro de 2019, que contou com 163.371 toneladas. Nas receitas houve queda de 2% em relação ao ano passado, com US$ 668,7 milhões contra US$ 679,8 milhões.

Desde janeiro o setor obteve altas expressivas em dólares que chegaram a atingir 40% de crescimento em junho passado.
No acumulado deste ano, as exportações de carne bovina registraram um crescimento de 10% em relação a 2019.

O volume total movimentado foi de 1,4 milhão de toneladas até setembro, contra 1,3 milhão de toneladas no mesmo período de 2019. Nas receitas o resultado é mais expressivo: em 2019, até setembro, foram obtidos US$ 5,1 bilhões e neste ano as vendas atingiram US$ 6,1 bilhões, crescimento de 20% nas divisas.

O principal comprador do produto brasileiro continua sendo a China. Em setembro, as compras chinesas atingiram a 96.385 toneladas. Até setembro, o Egito foi segundo maior comprador do produto brasileiro, com 101.416 toneladas. O terceiro foi o Chile, com 60.074 toneladas. O quarto foi a Rússia, com 46.242 toneladas. (CC)

Fonte: Diário da Região