out 10 2020

Do campo ao garfo: como tecnologias digitais têm impactado o agronegócio?


O agronegócio é um dos mercados que mais cresce no Brasil, mesmo com toda instabilidade econômica – o PIB do agronegócio brasileiro cresceu 3,81% de 2018 para 2019, segundo a Confederação da Agricultura e Pecuária do Brasil, a CNA. Ainda de acordo com o levantamento, feito em parceria com a Escola de Estudos Agrários da USP, o setor representa 21,4% do PIB total do País e continua aumentando sua participação diante dos resultados menos expressivos de vários outros setores durante a pandemia do COVID-19.

Até aqui, nenhuma novidade.

Acontece que esse mercado vem mudando drasticamente nos últimos anos. Tem-se ouvido cada vez mais sobre agricultura regenerativa, por exemplo, que conta com processos diferentes dos tradicionais para manejo do solo, da lavoura, da floresta e da pecuária – sempre que possível, trabalhando seus aspectos complementares e circulares.

Esse método une economia e sustentabilidade à agricultura de baixo carbono. Também bastante comentado ultimamente, esse modelo tem potencial de mitigar efeitos de parte da mudança climática de maneira mais integrada à produção de riqueza e segurança alimentar, fazendo muito mais conservar ecossistemas isoladamente.

A questão ecológica passou a ser um dos pontos focais, tendo o próprio Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento (MAPA) lançado o Programa Nacional de Bioinsumos no final de maio deste ano, para incentivar a produção de bioinsumos na fazenda, com matérias-primas de origem e concentrações rastreáveis e garantidas. Essa é uma iniciativa inédita no País.

Sabemos que o uso intensivo e abusivo de defensivos agrícolas, popularmente chamados de agrotóxicos, e fertilizantes químicos de origem petroquímica diminuem a qualidade do solo, com o seu empobrecimento, erosão e deterioração. Então, a agricultura de baixo carbono é uma alternativa sustentável, já que reduz os impactos negativos no meio ambiente em função do uso da tecnologia no “estado-da-técnica”, ou “tecnologia de ponta” nos meios de produção.

As tecnologias digitais são um ponto crucial nesse novo momento do agro, por já permitirem o ajuste e a redução de aplicação de insumos originários do petróleo, inclusive, intra-safra, quando até pouco tempo somente se conseguia fazer esses ajustes de safra em safra. A “realidade aumentada” que as tecnologias digitais estão proporcionando ao produtor rural faz com que o poder de decisão sobre toda a economia de escala de sua atividade econômica esteja, literalmente, na palma de sua mão.

84% dos produtores rurais utilizam algum tipo de tecnologia. É o que aponta uma pesquisa do Sebrae, em parceria com a Embrapa e o INPE. Entre as tecnologias digitais utilizadas, estão: uso da internet para atividades gerais ligadas à produção agrícola (70,4%), aplicativos de celular ou programas de computador para obtenção/divulgação de informações da propriedade e produção (57,5%) e aplicativos de celular ou programas de computador para gestão da propriedade e produção (22,2%).

A tecnologia já faz parte do agronegócio e a tendência é de que isso aumente de forma exponencial. Tanto por conta dos impactos da Transformação Digital nesse setor, como por essa nova diretriz de não focar somente nos resultados de negócios, mas sim, na sustentabilidade. Acompanhamos também a chegada da digitalização de tecnologias que antes eram manuais e demoradas em alguma parte de seu processo, como no teste de carbono orgânico do solo e a aferição de níveis de nitrogênio, fósforo e potássio, que hoje já podem ser feitos totalmente por análise de imagens de satélite.

O novo lema da agricultura digital e rastreável é “Do Campo ao Garfo”. Queremos saber, cada vez mais, a origem da alimentação que colocamos todos os dias na nossa mesa e a roupa que vestimos. E podemos, com marcas que respeitam e ouvem seus consumidores. Tanto pela nossa saúde como pela saúde do planeta.

A chamada Agricultura 4.0 permite aos fazendeiros ter mais controle da lavoura – com a análise das informações sobre o clima e o solo, por exemplo, é possível diminuir o consumo de água e contaminação do solo ao cruzar diversas informações e até prever infestação por pragas, cada vez mais controladas com inimigos naturais e vetores micro- e macrobiológicos. Também é possível dizer, com precisão de alguns metros de distância – através de sua composição química, de onde veio o alimento que você consome e o algodão da roupa que você veste.

A tecnologia que muda o agro é cada vez mais uma tecnologia de fronteira entre vários campos do conhecimento.

O agronegócio precisa ser mais sustentável. Todos os seus processos precisam ser mais transparentes para todos – eu quero saber a procedência dos legumes e dos grãos que como e dos laticínios que consumo. Mas não é só isso. Quero saber também se quem os produziu é guiado pela sustentabilidade, se pratica a agricultura regenerativa e de baixo carbono. Esse tipo de detalhe da informação só é possível com a digitalização das informações de produção e rastreabilidade total dos produtos do campo – e as possibilidades dentro do agronegócio são inúmeras. Você está pronto?

*Bernardo Arnaud, CEO da StarkSat

Fonte: O Estado de São Paulo