set 21 2020

Estudo confirma que apenas 4% dos fazendeiros que criam gado foram responsáveis desmate no MT


Até um terço do gado comercializado em Mato Grosso entre 2013 e 2017 esteve “contaminado” por desmatamento, de acordo com estimativa de um estudo realizado em parceria entre a organização não-governamental The Nature Conservancy (TNC) e a consultoria Bain & Company.

O levantamento também calcula que a pecuária foi praticada em áreas que variaram entre 30% e 40% da extensão desmatada no Estado nesse período, dependendo do ano. Dessa forma, a criação de gado relacionada ao desmatamento ocupou uma área equivalente a 4,5 vezes o tamanho da cidade de São Paulo.

Mas, de acordo com o estudo, o desmatamento esteve concentrado em poucos pecuaristas: apenas 4% dos fazendeiros que criam gado foram responsáveis por esse desmate no Estado entre 2013 e 2017 – ou 2,8 mil, no total.

Os resultados foram obtidos através do cruzamento de dados de satélite do Prodes no período em questão, do Cadastro Ambiental Rural (CAR) e de Guias de Transporte Animal (GTA) emitidas em 2016. A conclusão sobre a quantidade de gado relacionada com desmatamento foi estimada porque a Bain & Company, que conduziu a análise, não tinha os dados de todas as propriedades do Estado. Dos 70 mil pecuaristas em Mato Grosso em ação no período, 33 mil tinham CAR quando a análise foi realizada.



O estudo ainda comprovou que o problema está concentrado não nos fornecedores diretos dos frigoríficos, mas nos indiretos, em geral responsáveis pela cria dos animais. Dos 33% do gado “contaminado” pelo desmatamento, apenas 5,5% foram identificados em propriedades que vendem diretamente aos frigoríficos. Os demais 27,1% da produção está relacionada a fornecedores indiretos.

A análise chegou a identificar que 7,9% do gado comercializado na época saiu de propriedades de fornecedores indiretos que desmataram no período. Porém, como a princípio os frigoríficos não conseguem distinguir, ao comprarem o gado de um fornecedor direto, quais cabeças foram anteriormente adquiridas de uma fazenda com desmatamento ou não, a Bain & Company preferiu avaliar o quanto a venda dos fornecedores indiretos “contamina” as fazendas que vendem diretamente às indústrias.

Dessa forma, se um pecuarista vendeu, para a engorda final, 100 cabeças de gado a uma propriedade com 10 mil cabeças, todo esse plantel de animais foi considerado como “contaminado” pelo desmatamento. Esses 7,9% de gado dos fornecedores indiretos que desmataram acabaram, assim, “contaminando” 27,1% do gado dos fornecedores diretos.

“Isso significa que esse percentual de 33% é, provavelmente, menor”, afirma Carlos Libera, sócio da consultoria. Por outro lado, como não é possível analisar propriedades sem CAR ou que eventualmente transitaram animais sem a GTA, fazendas sem esses dados que possam ter desmatado não entraram na conta. Também não foi considerado o risco de “lavagem” de gado, que pode aumentar esse percentual.

O levantamento também não fez distinção entre desmatamento legal e ilegal, uma vez que os dados de CAR e GTA foram cruzados com imagens de satélite, que não discriminam se o corte de vegetação tem ou não licença para ser realizado. Entretanto, Anna Lucia Horta, gerente de negócios e investimentos da TNC, defende que a questão da legalidade é pouco relevante, já que a pressão social é contra o desmatamento em geral e porque já existem áreas que foram desmatadas no passado e que podem ser usadas para aumentar a produção agropecuária, sem a necessidade de mais devastação de vegetação.

Apesar de confirmar a influência da pecuária no desmatamento, a conclusão do estudo de que apenas 4% dos pecuaristas são responsáveis pela “contaminação” da cadeia é vista pela TNC como uma indicação de que o problema pode até ser mais fácil de ser resolvido do que parece. “Não é uma tarefa gigantesca tratar esses fornecedores”, diz a gerente da TNC.

Mesmo dentre esse pequeno grupo, há uma elevada concentração. Dos 2,8 mil desmatadores, somente 10% responderam por 60% da área desmatada. Em um recorte mais ampliado, identificou-se ainda que metade dos desmatadores responderam por quase toda a área desmatada – a outra metade foi responsável por extensões mínimas. Por outro lado, em um recorte menor, foi possível identificar, também, que somente 1,5% das propriedades foram responsáveis por 30% do desmatamento.

De acordo com Horta, da TNC, o objetivo do estudo foi “buscar uma solução para que daqui para frente não haja mais desmatamento na cadeia da pecuária” e entender “qual o tamanho do esforço” para garantir que a compra de carne bovina não esteja associado a desmatamento, o que ela considerou como sendo um esforço “gerenciável”.

Uma segunda parte do estudo da Bain & Company e da TNC concluiu que é preciso trabalhar tanto com o mercado de couro, cujas empresas consumidoras são mais concentradas, como o da carne – e com os investidores – para caminhar rumo ao desmatamento zero na pecuária, tendo como elo central as ações os frigoríficos e a colaboração do governo para a disponibilizar informações. “Sozinhos, eles não vão fazer isso, precisam ser incentivados e se juntar”, defendeu Libera.

“O maior desafio do setor“

Preocupados com os reflexos negativos do desmatamento em seus negócios, os três maiores frigoríficos brasileiros de carne bovina têm ampliado esforços para melhorar o rastreamento do gado que compram de seus fornecedores, sobretudo os indiretos que atuam na Amazônia – onde as empresas mantêm pactos contra a devastação desde a década passada, com avanços concretos no controle dos fornecedores diretos. A Marfrig divulgou recentemente que estabeleceu como meta “desmate zero” no bioma até 2025 (incluindo fornecedores indiretos), e acenou com a possibilidade de fazer o mesmo no Cerrado até 2030.

A JBS, líder global do segmento, informou que está desenvolvendo uma solução para buscar o monitoramento dos demais elos de sua cadeia de fornecimento. “Estamos bastante avançados, tecnologicamente e operacionalmente, para endereçar essa questão, e anunciaremos oportunamente um passo decisivo para solucionar aquele que é, atualmente, o maior desafio do setor”, disse a empresa.

Já a Minerva iniciou em julho testes com o Visipec, ferramenta desenvolvida pela Universidade de Wisconsin e pela ONG NWF baseada em dados públicos para o monitoramento socioambiental da cadeia da carne. Mas, segundo a empresa, é “importante lembrar que atualmente não há dados e estatísticas acessíveis e confiáveis sobre a cadeia de rastreabilidade completa de gado para determinar o número de fornecedores indiretos no Brasil”. A Minerva lembra que “a competência legal pela gestão das GTAs é de responsabilidade do Ministério da Agricultura” e defende que as indústrias tenham acesso irrestrito a todas as guias emitidas, incluindo a de seus fornecedores diretos.

Fonte: Beef Point