set 9 2020

Rastreabilidade e transparência na pecuária brasileira – Por Francisco Beduschi Neto


Em se tratando de produção de carne no Brasil, podemos dizer que rastreabilidade é saber a sua origem, desde o nascimento até chegar ao consumidor. Transparência é saber comunicar seus resultados aos outros, e quanto mais ativa for essa comunicação, maior será a transparência. Trocando em miúdos, rastreabilidade é saber a história do seu produto, e transparência é saber contar essa história de forma que isso lhe traga os benefícios que são frutos do seu trabalho.

No mundo ideal a rastreabilidade e a transparência andam de mãos dadas e juntas geram progresso para toda a cadeia produtiva. Mas se este é o cenário ideal, por que e como podemos implementar rastreabilidade e transparência na pecuária brasileira?

Não existe vácuo no mercado. Se o Brasil não responder a perguntas dos compradores, outro país ocupará o espaço.

No Brasil um bom exemplo de rastreabilidade e transparência dentro da cadeia de produção em larga escala é a produção de carne de frango. A rastreabilidade e a comunicação inerentes ao sistema permitem identificar e corrigir problemas rapidamente, sejam eles de manejo, nutrição ou bem estar animal, por exemplo. Essas ferramentas também trazem uma enorme capacidade de responder a perguntas dos compradores e seguir ampliando a sua participação no mercado mundial.

Com tudo isso não estamos sugerindo que a pecuária adote o sistema produtivo de integração da avicultura, mas que a rastreabilidade e a transparência trazem benefícios. Em outras palavras, coletar e compartilhar informações sobre a produção facilita auto-gestão da cadeia, a promoção de uma produção sustentável e responder às questões do mercado.

Quando olhamos o mercado nacional, de acordo com a publicação do Ministério da Agricultura – Projeções do Agronegócio Brasil 2020 – 2030, teremos um aumento na produção de 16% enquanto o consumo crescerá apenas 10%. Sendo assim, exportar carne bovina será um fator de suma importância para manter o equilíbrio entre oferta e demanda, e neste sentido o Brasil tem feito a lição de casa. De acordo com dados do governo federal, a receita com a exportação de carne bovina passou de US$ 2,1 bilhões em 2009 para US$ 6,5 bilhões em 2019, um crescimento de mais de 200% em 10 anos. Se olharmos apenas os anos de 2018 e 2019, houve crescimento de 16% no volume exportado, atingindo 1,57 milhões de toneladas, gerando US$ 6,5 bilhões em receitas.

Alguns fatores impulsionaram essa expansão do Brasil no mercado internacional, por exemplo: ocorrência da peste suína africana na China, que levou o governo local a sacrificar metade do rebanho daquele país; a desvalorização do real frente ao dólar, que facilitou a compra dos nossos produtos pelos importadores; e o crescimento da renda per capita. Tudo isso permitiu que os consumidores acrescentassem dois novos critérios na hora de decidir uma compra de carne: segurança do alimento e quesitos socioambientais.

Mesmo que a importância relativa desses dois novos quesitos varie de acordo com o país, cultura e renda, eles não podem ser menosprezados por quem quer se manter no mercado no longo prazo. Em outras palavras, os consumidores não querem em seus pratos um produto que esteja vinculado ao desmatamento, queimadas, ou outras ilegalidades.

Do seu lado o varejo dá sinais claros de que essas mudanças já estão acontecendo, e grandes empresas que operam no Brasil têm compromissos públicos neste sentido. No mercado internacional, até mesmo a China está fazendo mudanças. A China Meat Association (CMA) e suas 64 empresas associadas assinaram um compromisso com a promoção da produção sustentável de carnes e é importante lembrar que a China foi o destino de 52% das exportações de carne bovina do Brasil em 2019. Assim, para manter o crescimento e a participação no mercado é imprescindível que os elos da cadeia de produção da carne bovina se unam e comecem a responder as questões levantadas.

Para responder essas questões da demanda, o lado da produção já começa a se mexer e mostra avanços. Há dez anos o Ministério Público Federal e os frigoríficos na Amazônia começaram a implementar os Termos de Ajustamento de Conduta que vetam a compra de gado oriundo de propriedades com irregularidades. Um estudo desenvolvido pela ONG Amigos da Terra, em 2019, no Estado do Pará, mostra que houve progresso neste período.

De acordo com a análise, a proporção de compras com irregularidades em relação ao total de compras nestes frigoríficos, caiu de 9,3% para 4,7%, o que é muito bom e demonstra progresso.

Mas ao verificar apenas a fazenda que vendeu os animais para o frigorífico, o fornecedor direto, o sistema é incompleto. No Brasil na maioria das vezes, os animais passam por duas ou mais fazendas antes do abate. Ou seja, o sistema não detecta problemas nos fornecedores indiretos mesmo que o animal tenha passado grande parte da sua vida em uma outra fazenda não-conforme.

A boa notícia é que a própria cadeia vem tomando ações para enfrentar este problema. Há cinco anos, produtores, frigoríficos, varejistas, empresas de prestação de serviço, ONGs e o MPF, se uniram para formar o Grupo de Trabalho dos Fornecedores indiretos GTFI. Outro grupo que envolve ONGs e a iniciativa privada e está debruçado sobre o assunto é a Coalização Brasil, Clima, Floresta e Agricultura, que atualmente tem uma força tarefa dedicada ao tema rastreabilidade na pecuária. Assim, de forma conjunta ou por iniciativa própria, como foi o caso do Marfrig que fez este anúncio no último dia 23, a produção começa a tomar a direção correta.

Neste cenário é preciso lembrar que não existe vácuo no mercado, ou seja, se o Brasil deixar de responder as perguntas dos compradores, algum outro país produtor vai ocupar esse espaço. Para isso o governo deve finalizar a implantação do Código Florestal, afinal restam propriedades que não fizeram o Cadastro Ambiental Rural e este é apenas o primeiro passo na regularização ambiental.

Já a iniciativa privada precisa ampliar o monitoramento da produção pecuária para abranger fornecedores indiretos e mesmo outros biomas. Isso possibilitará que a cadeia entenda melhor quem são os produtores que fazem parte dela, quais são os seus problemas e quais são as possíveis soluções.

A conclusão é que temos muito a comemorar e devemos reconhecer que a maioria dos nossos produtores rurais cumpre o seu papel de produzir alimentos e o faz dentro da lei. O Brasil tem tudo o que é necessário para cumprir seu papel de ser o celeiro do mundo, o que precisamos é traçar planos de longo prazo neste sentido.

Por Francisco Beduschi Neto, engenheiro agrônomo especialista em agricultura sustentável da NWF (National Wildlife Federation).

Fonte: Beef Point