set 6 2020

A agrônoma que representa o setor de exportações de carne bovina no Brasil


Não e´ a` toa que a engenheira agro^noma Lie´ge Vergili carrega ate´ hoje o codinome Floema, apelido que ela ganhou aos 17 anos, ao ingressar na Escola Superior de Agricultura Luiz de Queiroz, a Esalq. Em bota^nica, floema e´ um tecido complexo, formado por diferentes tipos celulares e que garante a conduc¸a~o de substa^ncias vitais para a planta, como a´gua, sacarose, aminoa´cidos, a´cidos nucleicos e i´ons inorga^nicos.

Lie´ge e´ o floema em um dos segmentos mais poderosos do agronego´cio. Aos 33 anos, ela lidera atualmente a Abiec, associac¸a~o que reu´ne 30 frigori´ficos brasileiros exportadores, que representam 92% do setor de carne bovina. Lie´ge e´ quem conduz as negociac¸o~es e conhece de ponta a ponta os pormenores da indu´stria nacional da carne, que em 2019 movimentou US$ 7,5 bilho~es, com a exportac¸a~o de 1,8 milha~o de toneladas para 154 pai´ses.

A jovem assumiu o cargo de diretora executiva dessa poderosa associac¸a~o em 2016, quando foi convidada a assumir o posto, ate´ enta~o, sempre ocupado por homens. “Eu cresci olhando para o inalcanc¸a´vel”, diz ela. “Mas, hoje, na~o existe mais o inalcanc¸a´vel para as mulheres.”

Ma~e de dois filhos, uma menina de sete anos e um menino de dois, a diretora executiva da Abiec e´ natural de Piracicaba (SP), mas foi na casa da avo´, que cultivava algoda~o em uma pequena cidade pro´xima, tambe´m no interior paulista, onde aprendeu a gostar da natureza.

“Eu era uma menina da cidade, e o u´nico contato que tinha com a natureza foi la´, na casa dela. Quando ingressei na Esalq, em Piracicaba, senti o mesmo amor da e´poca de crianc¸a”, lembra. “Foi esse sentimento que me levou a trilhar caminhos pouco desbravados pelas mulheres na atuac¸a~o no setor de protei´na animal.” Apesar do peso masculino que havia na a´rea escolhida para atuar, Lie´ge na~o desistiu, tampouco se sentiu desprivilegiada.

Das salas de aula, a enta~o rece´m-formada partiu para o mercado de trabalho como consultora do Centro de Estudos Avanc¸ados em Economia Aplicada (Cepea), na a´rea de pecua´ria leiteira e fertilidade, e logo em seguida foi trabalhar como trainee junto a` diretoria de bovinos da Sadia.

“Ali, eu conheci e convivi com grandes personalidades da pecua´ria como o professor Se´rgio De Zen (hoje diretor de poli´tica agri´cola da Companhia Nacional de Abastecimento, a Conab), Jorge Camardelli (presidente executivo da Abiec) e Marcos Vini´cius Pratini de Moraes, ex-ministro da Agricultura”, conta. “Cada troca de palavras com eles era um aprendizado.”

Na Sadia, fundada em 1944 e uma das mais importantes empresas do mundo no setor, Lie´ge trilhou uma carreira promissora, ate´ ser convidada, pessoalmente, por Jorge Camardelli para atuar como gerente de projetos na Abiec. “O mercado de exportac¸o~es de carnes bovinas era um desafio novo para a minha carreira e, como minha avo´ dizia, na~o existia o inalcanc¸a´vel.”

Lie´ge atuou na Abiec ate´ meados de 2012, quando surgiu em sua frente outro grande desafio: ser coordenadora da maior expedic¸a~o sobre a criac¸a~o de bovinos no Brasil, o Rally da Pecua´ria. E mais: mudar-se da cidade de Sa~o Paulo para a praiana Floriano´polis, em Santa Catarina. “Ai´, com uma filha pequena no colo, a mudanc¸a de cidade, de rotina... Foi tudo mais desafiador.”

O Rally da Pecua´ria e´ uma expedic¸a~o ine´dita no mundo: equipes formadas por zootecnistas, me´dicos-veterina´rios, agro^nomos e consultores em pecua´ria percorrem, por cha~o, todas – todas, sem excec¸a~o! – as regio~es brasileiras para analisar (o que inclui realizar medic¸o~es te´cnicas em pastos, inclusive contando o nu´mero de fezes de animais por metro quadrado) as condic¸o~es da criac¸a~o de gado no Brasil.

“Este pai´s e´ uma pote^ncia produtiva, mas tambe´m e´ uma imensida~o”, diverte-se a executiva, lembrando-se das complicac¸o~es que surgiam na organizac¸a~o de um projeto desse porte. “Mas tudo tem seu tempo e, no final do ano de 2016, voltei a` Abiec.”

A volta para a entidade que ensinou a` moc¸a, a` e´poca com seus 30 anos, os bastidores do come´rcio exterior e das relac¸o~es internacionais a colocou numa posic¸a~o de lideranc¸a das mais importantes no agronego´cio mundial.

“Eu cheguei, no passado, a ouvir frases do tipo 'ou voce^ e´ agro^noma ou voce^ e´ bonita', e por ai´ vai, para na~o citar algumas mais machistas ainda", diz ela. "Mas o mundo esta´ mudando, as pessoas, mesmo que aos poucos, esta~o evoluindo, e hoje vejo muitas mudanc¸as no setor da pecua´ria tambe´m. Acredito que a postura das pessoas no mercado de trabalho as define muito mais que ter um diploma.”

A Abiec, pode-se dizer, e´ hoje uma entidade comandada por muitas mulheres. Dos 19 colaboradores que atuam no escrito´rio central da associac¸a~o, 16 sa~o mulheres. “Na~o, isso na~o foi so´ a minha influe^ncia como diretora da entidade. Na~o temos pre´-requisitos, a habilidade vem em primeiro lugar”, afirma Lie´ge, que participa de muitas iniciativas dentro do agronego´cio que promovem a equidade de ge^nero, como o Grupo Donna, um movimento que visa mostrar a outras mulheres que o inalcanc¸a´vel na~o existe e apresentar histo´rias de protagonismo feminino.

“O agronego´cio ainda e´ um setor predominantemente masculino, mas temos mulheres incri´veis escrevendo histo´rias exemplares.” Ela acredita que, no futuro, o agronego´cio sera´ um setor mais igualita´rio. “As novas gerac¸o~es esta~o transformando as pessoas e, na pecua´ria, a discussa~o sobre e equidade de ge^neros esta´ avanc¸ada. E´ claro que ainda temos de trabalhar muito, criar novas discusso~es para incomodar. E, ainda assim, muita gente ainda vai tentar nos descreditar simplesmente porque somos mulheres e porque somos jovens”, diz Lie´ge.

“As mulheres esta~o assumindo seus pape´is, a postura de serem ouvidas e se fazerem ouvir e respeitar. Quando voce^ expo~e opinio~es, conquista espac¸os no mercado. E tem outra coisa. No mercado, ningue´m quer perder dinheiro.”

Fonte: Globo Rural