ago 17 2020

Sob pressão, agronegócio procura aumentar credibilidade


Diante da crescente pressão para que o Brasil detenha o desmatamento na Amazônia, os gigantes do agronegócio asseguram que estão aumentando os controles sobre a origem de seus produtos e pedindo ao governo de Jair Bolsonaro que faça cumprir a legislação ambiental.

O recente caso da JBS, maior produtora de carne do mundo e acusada por um consórcio de mídia investigativa de “lavagem” de gado de terras desmatadas ilegalmente na Amazônia, aumentou essa pressão.

Marfrig, segunda maior produtora mundial de carne bovina, implantou um sistema de monitoramento de seus fornecedores diretos na Amazônia desde a assinatura do compromisso do setor, em 2009, de não comprar de fazendas vinculadas ao desmatamento.

O dispositivo permite bloquear o gado que pasta em áreas recentemente desmatadas, invadindo áreas protegidas ou territórios indígenas.

Mas o grupo reconhece que seus frigoríficos têm dificuldade em rastrear a origem do gado, parte proveniente de criadores que só o engorda depois de comprá-lo em outro lugar.

No final de julho, a Marfrig anunciou que integraria ao seu sistema, em dez anos, todos os seus fornecedores indiretos na Amazônia e no Cerrado, e ajudaria os infratores a melhorar suas práticas antes de serem desbloqueados.

“A rastreabilidade total contribuirá para a preservação ambiental”, declarou na ocasião o controlador da Marfrig, Marcos Molina: a empresa gostaria que o governo reforçasse a documentação obrigatória do transporte de gado, em especial integrando ao aspecto sanitário o controle ambiental.

Para ter acesso ao mercado europeu, os criadores brasileiros devem aderir ao Sistema de Identificação de Certificação de Origem Bovina (SISBOV), que exige rastreabilidade individual de cada animal. Para exportação para outros países e vendas, a maioria, no mercado interno, a adesão é facultativa.

– Efeito do anúncio –
Junto com outros representantes do setor agroalimentar, Marcos Molina participou, no dia 10 de julho, de um encontro com o vice-presidente Hamilton Mourão sobre como salvar a Amazônia.

“Queremos que a floresta fique em pé, isso pode deixar o Brasil com mais competitividade no âmbito do desenvolvimento de uma economia de baixo carbono”, destaca Marina Grossi, presidente do Conselho Empresarial Brasileiro para o Desenvolvimento Sustentável, presente na reunião.

Segundo ela, essa rastreabilidade vai permitir “separar o joio do trigo”, uma vez que o desmatamento ilegal “prejudica o país e arranha a imagem de todos os que respeitam a lei”.



Mas, até o momento, Adriana Charoux, responsável da Amazônia no Greenpeace, só viu os efeitos do anúncio.

“Só quando dói o bolso delas que as empresas se movem para cumprir o que devem fazer: melhorar a transparência delas e pressionar o governo”, disse à AFP.

“Ficam muito silenciosas sobre o desmonte dos órgãos públicos de fiscalização ambiental” em andamento desde a chegada ao poder, em 2019, de Jair Bolsonaro.

Ela percebe “uma falta de vontade pública, quando as ferramentas já existem” para exercer essa vigilância.

– Soja “contaminada pelo desmatamento” –
Idem para a soja. Desde a moratória concluída em 2006, os comerciantes brasileiros se comprometeram a não mais comprar oleaginosas de áreas desmatadas ilegalmente na Amazônia.

Isso levou à criação de um sistema de rastreabilidade em que “podemos conferir se a área onde a soja foi plantada foi embargada”, afirma André Nassar, presidente da Associação Brasileira das Indústrias de Óleos Vegetais (Abiove).

Mas cabe às autoridades públicas “a identificação das infrações”.

Desde então, o cultivo de soja “migrou” para a região do Cerrado.

Embora menos de 10% das propriedades rurais nas duas regiões desmatem ilegalmente, cerca de 20% dos cultivadores de soja têm parte desmatada não autorizada de suas terras para outras finalidades, estima estudo publicado em julho na revista Science.

Suas sementes oleaginosas são então “contaminadas” por essa prática.

“É o papel das autoridades de atuar nessas áreas e impor o cumprimento do Código Florestal”, afirma Sergio Mendes, diretor-executivo da Associação Nacional dos Exportadores de Cereais (Anec).

Contactado pela AFP, o Ministério da Agricultura não respondeu.

IstoÉ Dinheiro