jun 22 2020

Produtores de leite encontram saídas para sobreviver à pandemia


Ainda está escuro. Os raios de sol alaranjados nascendo começam a inundar a penumbra da noite e vai mostrando a pastagem coberta pelo sereno. O galo ainda nem cantou e o produtor já está no curral ordenhando as vacas mansas, porque ele sabe como acalmá-las. O leite, fruto da produção familiar capixaba, é fonte de sustento em meio à pandemia do novo coronavírus.

Aos 66 anos de idade, o produtor rural Gilven Antonio Piazzarollo, mais conhecido como Gil, cuida das 15 vacas que tem na propriedade. O leite que é tirado manualmente não é muito se comparado aos grandes laticínios, mas ajuda na renda. Às vezes são três litros, em outras ocasiões são cinco ou mesmo dez litros produzidos por animal, que é uma mistura de raças conhecida por girolanda.

Antes da curva, ao lado da Estrada do Itaiobaia, que faz parte do Circuito de Agroturismo Guaranhus, na Serra, na Região da Grande Vitória, fica o curral do sítio. Ao todo são dez alqueires divididos igualmente entre reserva florestal e área utilizada para as atividades agropecuárias e turísticas, como mostram as imagens capturadas pelo fotógrafo de A Gazeta Ricardo Medeiros.

O leite produzido pela pequena fazenda é comercializada por ali mesmo. Ele também vira o manjar dos deuses, a ambrosia. Da bebida branca ainda é feito o amado doce de leite e quase dez variações da delícia. Tudo é vendido no restaurante que fica dentro da propriedade rural.

O sítio funciona como uma área de lazer e restaurante rural com fogão a lenha, piscina natural, passeio a cavalo, charrete, banho de bica e trilhas, um verdadeiro refúgio. Por isso, recebia muitas famílias ao longo do ano.

Quem comanda o local é a Maria Helana de Sousa Piazzarollo, 56 anos, esposa do Gil. O movimento por lá caiu muito e chegou a ficar fechado por 40 dias no início da pandemia do coronavírus. Antes, recebia de 500 a 600 pessoas aos domingos. Agora, pouco mais de 150 visitantes dependendo dia.

CORAÇÃO BOIADEIRO

De norte a sul do Espírito Santo são 1,46 milhão de hectares de pastagens para a criação de gado de corte e leiteiro. De acordo com dados do Instituto de Defesa Agropecuária e Florestal do Espírito Santo (Idaf), são cerca de 1,94 milhões de cabeças de bovinos.

A pecuária leiteira estadual fornece leite em 90% dos municípios capixabas. Informações da Plataforma de Gestão Agropecuária (Sigsif) mostram que entre o final de 2018 e o início de 2019, o Estado produziu 330 milhões de litros de leite em um rebanho de 213 mil cabeças de vacas ordenhadas. A produção média diária de 55 litros por propriedade.

A pecuária uma parte importante da geração de riquezas do país. Em 2017, ela representou 12% do PIB agropecuário capixaba, sendo de R$ 426,7 milhões para a pecuária leiteira e R$ 677,7 milhões para a de corte.

O leite, a carne e os seus derivados como queijos, iogurtes e embutidos produzidos no Espírito Santo são, majoritariamente, destinados ao abastecimento do mercado consumidor interno segundo o Idaf. Juntos, eles envolvem 35.261 propriedades e 34.102 produtores. Sem contar que o Estado comercializa animais geneticamente superiores com aptidão para produção de leite e carne.

ROTINA SEGURA E VENDA GARANTIDA

Na Estrada do Itaiobaia, na Serra, onde vive o Gil e a Helana, também há outras propriedades. Ainda por lá se encontra o produtor rural de 81 anos José Miguel Fonseca de Faria, mais conhecido como Seu Jorge. A lida da ordenha das vacas e da produção de queijo artesanal ele sabe de cor. Às vezes não deu nem uma da manhã e já está de pé no curral preparando a vaca.

Em média, ele ordenha 25 a 30 vacas, dependendo do período rende 120 litros de leite por dia, o que permite a produção de até 30 queijos por dia. Nessa época do ano, junho, com o inverno se aproximando, a produção acaba diminuindo um pouco. Com isso, a produção média diária de queijos não chega a 13 peças.

O produto é comercializado na Serra e também em Vitória. Com a pandemia, Seu Miguel fica em casa enquanto a filha cuida das entregas. "É uma medida de segurança. Além disso, uso máscara para trabalhar", afirma ele. A venda do que produz é garantida porque sempre vendeu diretamente para as pessoas. "Elas conhecem o meu produto e sabem o valor que tem", lembra.

Nascido e criado na roça, saiu de São José dos Calçados, no Extremo Sul do Espírito Santo, quando mais jovem. Seu Miguel veio trabalhar na Grande Vitória, onde abriu uma loja de produtos veterinários.

A Gazeta