jun 2 2020

Especialistas traçam cenário do leite


Qual o futuro do leite e o leite do futuro? Com essa pergunta foi iniciado o debate on-line que reuniu seis conceituados líderes do setor produtivo nesta segunda-feira (1º), o Dia Mundial do Leite. A mediação ficou por conta do chefe-geral da Embrapa Gado de Leite, Paulo do Carmo Martins.

O Brasil é o quarto mais produtor de leite do mundo, ultrapassando os 34 bilhões de litros. Tem uma cadeia de 1.171 milhão propriedades produtoras entre pequenas, médias e grandes, que se desenvolve em 99% dos municípios brasileiros e com papel de manter os trabalhadores no campo, empregando diretamente 5.200 mil famílias, além dos empregos indiretos. Muitos municípios já atingem índices de produtividade de países desenvolvidos como a Austrália, com média de 4 mil litros por vaca ao ano, segundo dados da Associação Brasileira dos Produtores de Leite (Abraleite). Mas com um setor tão importante porque não se conseguem números como os da soja e proteína animal, por exemplo? O que o setor precisa para ser o alimento do futuro? Essas e outras questões são apontadas no debate.

O leite do futuro

O ex-ministro da Agricultura (1974 a 1979), Alysson Paolinelli, destaca que viu a atividade leiteira se desenvolver no país nas últimas décadas e triplicar em relação a sua época como líder do setor, em grande parte pelo aporte de tecnologia e genética. Ele aponta que, no desafio proposto pela FAO de que a produção de alimentos aumente 70% até 2050 para dar conta de alimentar toda a população mundial, o Brasil precisa aumentar apenas 41%. “Ostentamos os primeiros lugares como exportadores de alimentos e os mercados estão ávidos. Se somos imbatíveis em grãos, frutas, bioenergia, nós temos que estar convictos que seremos importantes na cadeia do leite também”, diz.

Paolinelli costuma dizer que o Brasil foi quem desenvolveu uma pecuária leiteira para os trópicos, provando que áreas tropicais são viáveis na produtividade. “Sei das dificuldades mas precisamos de políticas sérias, ciência e tecnologia, assistência técnica e extensão rural e que as empresa privadas também façam seu papel em evoluir no leite ofertando tecnologia. Vejo o Brasil como um dos futuros fornecedores e lácteos e leite no mercado internacional”, aposta.

Para isso a chave está na eficiência produtiva, defende o presidente da Abraleite, Geraldo Borges. Para ele a competitividade está batendo a porta do produtor de leite e exigindo trabalho organizado para ter capacidade exportadora. “Seja pequeno, médio ou grande se não tiver eficiência não continuará na atividade. Precisamos de organização que garanta preço e dignidade do produtor”, constata.

Todos concordam que o leite é um alimento básico na alimentação humana desde a infância, sendo insubstituível mas que tem ficado para trás diante de questões como a modernização industrial. “O leite do futuro precisa de um salto. As outras cadeias se modernizaram e o leite ficou pra trás. Precisa de inovação, novos mecanismos, tratarmos a sanidade como fundamental”, diz o presidente do Sistema OCB, Marcio Lopes. Nesse contexto as cooperativas que, antes, captavam cerca de 60% da produção hoje captam apenas 30%. “Precisamos nos organizar e retomar. Remuneração justa e sair do mercado de commodities para dar competitividade ao leite e lácteos”.

A questão sanitária também impacta. Com as operações que detectaram fraudes no leite e queijos, a imagem do setor ficou abalada e, agora mais do que nunca, as condições sanitárias são prioridade diante do cenário mundial. “Temos um sistema sanitário bem regulado. Vacinamos contra aftosa duas vezes ao ano e agora evoluindo para retirar. Temos, do campo à mesa, muita gente envolvida nesse processo e precisamos valorizar nosso potencial, defende o presidente da Associação Brasileira da Indústria de Alimentos ( Abia), João Dornellas.

Para o professor USP, Unesp e Universidade da Florida, José Eduardo Portela, o espaço o leite vai ser cada vez maior porque é um alimento único e privilegiado. Ele aponta dois fatores fundamentais: valorização do alimento e rastreabilidade. “Espero que o leite do futuro continue sendo produzido mamíferos como vacas, cabras, búfalas, ovelhas e que não se confunda com outras bebidas semelhantes que tentam substituir suas características que não são encontrados em nenhum outro. Acho, também, que a palavra do futuro é rastreabilidade. O consumidor quer saber em que fazenda foi produzido, por qual animal, de que forma e se há zero contaminantes. Temos que repensar e mostrar ao consumidor que o que chega a ele é o que nós daríamos a nossos filhos e família, com valor agregado”, finaliza.

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