jun 8 2020

Como minha fazenda pode produzir bezerros acima da média no Brasil?


A pecuária de corte brasileira possui uma taxa de desmama média de 65%, ou seja, a cada 100 vacas que estão aptas à reprodução, apenas 65 desmamam um bezerro por ano. Como uma fazenda pode começar um trabalho para passar desta média, considerada baixa por especialistas? E como alcançar mais do que quantidade, qualidade dos bezerros desmamados?

Uma vez que o Brasil pecuário está se preparando para a estação de monta, que começa junto à primavera e o retorno das chuvas, o Giro do Boi desta segunda, 08, tratou do assunto em entrevista com o médico veterinário e mestre em reprodução João Barbuio, gerente técnico da MSD Saúde Animal. Ele falou sobre os principais desafios do criador e como ele pode superá-los.

O primeiro manejo a ser melhorado é o da nutrição, fator essencial que impacta no desempenho reprodutivo de uma fazenda. “É o fator mais importante de todos. Não adianta a gente ter o melhor protocolo do mundo de IATF se as vacas não tiverem condição corporal, condição nutricional adequada. Lembrando que o primeiro sistema do bovino que se interrompe na deficiência nutricional é o sistema reprodutivo, então se nós não cuidarmos bem da nutrição dos animais, nós consequentemente teremos muitos insucessos no resultado final da reprodução”, explicou o veterinário.

Barbuio afirmou também que como a pecuária está cada vez mais intensiva por conta da competitividade de atividades concorrentes, como a agricultura, o maior número de animais por área acaba dificultando também o manejo sanitário. Por isso a vacinação destinada a prevenir doenças reprodutivas é um dos pontos e que podem acarretar em aumento da produção de bezerros, seja por evitar abortos, natimortos ou nascimento de bezerros fracos que falham em sobreviver até a desmama. “Vale lembrar que o custo da sanidade hoje de uma fazenda gira em torno de 2% a 3% do custo total”, reforçou. “Se não tivermos bezerros, não teremos vacas, nem bois e não chegaremos ao objetivo da pecuária de corte, que é produzir carne de qualidade”, afirmou.

Barbuio detalhou o protocolo sanitário para vacas em reprodução. “Em se falando de vacinas reprodutivas, vale lembrar que se o animal nunca foi vacinado na vida dele, ele precisa obrigatoriamente receber duas doses em um intervalo entre 20 e 30 dias. Na primovacinação, como a gente chama, o ideal é que a gente faça isso antes de iniciar a vida reprodutiva da fêmea, desta novilha. Quando estiver no início do protocolo (de reprodução), ela já deve ter recebido estas duas doses com antecedência, e aí a partir da primovacinação, é uma dose por ano. Nós podemos ampliar para duas doses, dependendo do desafio, mas desde que seja feito logo no início, até antes da gestação para que a gente consiga proteção total dos animais”, aconselhou.

Com bom escore corporal e protocolo sanitário em dia, assegurando que os esforços em reprodução não serão desperdiçados, Barbuio disse que é hora de o produtor programar a sua estação de monta. “Como nós dependemos diretamente de uma boa nutrição, então os protocolos começam a ser estabelecidos a partir da volta das águas, quando há melhoria da qualidade e quantidade de forragem, e aí, sim, tem condições de para atingir bons resultados de prenhez. […] O ideal, por incrível que pareça, considerando vacas paridas, é começarmos logo após o parto, ou seja, respeitando os 30 dias pós-parto, isso é obrigatório, então quanto mais cedo nós começarmos, melhor é o resultado de prenhez por protocolos da IATF. No Brasil, de modo geral, a gente costuma começar (o protocolo) a vaca entre 30 e 60 dias de parida, aí consegue os melhores resultados”, informou.

Segundo Barbuio, a inseminação artificial traz uma série de benefícios para as propriedades, como produção de carne de qualidade, facilidade para o cruzamento industrial e aceleração do melhoramento genético, porém a modalidade tem seus fatores limitantes: o período de anestro, ou seja, de inatividade sexual das matrizes, o que pode variar de 60 a 120 dias nas vacas zebuínas, com a baixa disponibilidade de forragem podendo impactar negativamente, e também a observação do cio, que nas fêmeas zebuínas é curto, dificultando a detecção com o uso de rufiões, por exemplo.

A IATF – Inseminação Artificial por Tempo Fixo, entretanto, solucionou estes gargalos da IA. “Hoje a MSD Saúde Animal busca facilitação de manejo, então esse protocolo que vocês veem na tela é um protocolo de manejos até você realizar o serviço propriamente dito (veja em detalhes na palestra em PDF disponível abaixo). No dia que você começa o protocolo, que nós chamamos de dia zero, nós fazemos a administração de um fármaco, mais inserção de um implante intravaginal, deixa esse implante por oito a nove dias na vaca para depois levar novamente os animais para o curral. Você tira o implante, faz administração de alguns fármacos e a realização da inseminação ocorre 48 horas após, ou seja, no terceiro manejo. Então hoje nós enxergamos que quanto mais fácil a administração do protocolo, melhor é para todo mundo na fazenda, para os funcionários, para o produtor, para o veterinário. Nós optamos em desenvolver protocolos mais curtos e mais condensados para que a gente consiga otimizar o resultado e também aumentar o número de protocolos e a realização de protocolos por animal, que seriam as famosas ressincronizações, hoje muito em evidência”, instruiu.

As ressincronizações são aplicadas nas vacas que não tiveram prenhez confirmada com um determinado protocolo da IATF. Dependendo da duração da estação de monta e de quão cedo nesta estação de monta foi aplicado o primeiro protocolo, uma mesma vaca pode ter até três chances de receber protocolo e emprenhar. “Nós podemos ter o orgulho de sermos referência mundial hoje nessa parte de sincronização de cio. A inseminação artificial em tempo fixo vem crescendo muito, nós temos muito tempo já com essa tecnologia em andamento, em desenvolvimento. […] Os protocolos da IATF hoje são muito previsíveis, então importante para que a gente tenha aquele resultado esperado é um planejamento prévio para que quando chegar a hora da estação de monta tudo esteja correndo bem dentro da fazenda e a gente atinja os nossos objetivos, que são altas taxa de prenhez. […] Quando a gente lança mão da IATF para realizar dois ou três protocolos seguidos, a gente pode atingir até 90% de prenhez em situações a campo em gado de corte”, destacou.

Antes de concluir sua participação, o veterinário fez um convite para um webinar a ser realizado pela MSD Saúde Animal nesta segunda, 08, às 19h, com o tema “Bem-estar animal dentro da porteira: Implementação e resultados na prática”. Veja abaixo a programação completa, que inclui apresentações de Mateus Paranhos, Janaína Braga, Junior Caetano e Antony Luenenberg, que serão transmitidas pelo canal da MSD Saúde Animal no YouTube: