set 23 2019

Pesquisadores lançam painel científico sobre a Amazônia


Foi lançada em Nova York a pedra fundamental de criação de uma espécie de “IPCC da Amazônia’, em referência ao Painel Intergovernamental sobre Mudança do Clima das Nações Unidas, célebre pelos relatórios que sistematicamente fazem um diagnóstico dos estudos globais sobre o tema.

Partiu do economista americano Jeffrey Sachs, professor de desenvolvimento sustentável na Universidade Columbia e diretor do Sustainable Development Solutions Network, ligado às Nações Unidas, a ideia de criar um painel científico com foco na Amazônia.

No final de agosto, com a eclosão das queimadas na floresta, Sachs entrou em contato com o climatologista Carlos Nobre. Começaram a montar uma lista de cientistas dos nove países amazônicos.

Ontem, em uma sala da sede da ONU, em Nova York, 40 pessoas se reuniram para discutir o lançamento do Painel Científico sobre a Amazônia, um nome ainda provisório. Mais da metade eram cientistas que estão baseados na região amazônica. Havia alguns britânicos, americanos e franceses.

“Saímos dali comprometidos com o painel”, diz Nobre. Funcionará como o IPCC, lançando relatórios sobre o estado da ciência em relação à Amazônia, sem, contudo, produzir novas pesquisas.

A principal diferença em relação ao IPCC é que não será um painel intergovernamental - não há relação com governos. Outro ponto é que os relatórios lançados pelo IPCC não sugerem soluções. "Não teremos essa limitação. Poderemos sugerir políticas públicas", afirmou Nobre.

A ideia inicial é que o painel dure três anos, mas Nobre arrisca que ele pode, na verdade, não ter uma data de término.

“Vamos mostrar o que está acontecendo na Amazônia, o quanto está ou não se aproximando dos ‘tipping points’ [pontos de inflexão].”

Nobre faz referência a um de seus estudos mais famosos, que indica que, a partir de determinada taxa de desmatamento, a floresta começa um processo de savanização. O processo seria então irreversível - ou melhor, levaria centenas, milhares de anos para a floresta se recompor.

Isso aconteceria quando 20% a 25% do bioma estivesse desmatado. A taxa atual é próxima a 17%. No ritmo atual do desmatamento, este cenário poderia ocorrer em 20 ou 30 anos.

O painel pretenderá mostrar toda a diversidade do bioma. A Amazônia tem parte na costa, outra é andina, uma terceira porção está nas chapadas das Guianas.

A intenção, afirma Nobre, é ter pelo menos 50% dos cientistas que estão na Amazônia no painel. Os relatórios irão apresentar o estado atual da ciência da floresta em clima e ecologia, mas também nas ciências sociais.

“Poderemos dar foco à Amazônia. Mostrar qual o estado da floresta, o que tem ali, quanto existe de floresta natural, qual a qualidade da água”, explica o engenheiro florestal Tasso Azevedo, coordenador e fundador do MapBiomas.

O primeiro relatório do novo painel deverá ser lançado em meados de 2020.

Valor Econômico