set 24 2019

UE reitera boicote à carne do Brasil


A União Europeia (UE) vai continuar a exigir que o Brasil cumpra os seus compromissos de combate à desflorestação da floresta amazônica, mas rejeita banir a importação de carne bovina como retaliação, segundo a comissária do Comércio.

“Boicotar produtos não é, geralmente, uma boa ideia. E se um país disser que quer boicotar as [importações] de carne bovina brasileira, isso é contra as regras da Organização Mundial de Comércio [OMC] e não estamos autorizados a fazê-lo”, afirmou a comissária europeia Cecilia Malmström.

Em entrevista à agência Lusa, em Bruxelas, a responsável notou que “cabe aos consumidores decidir o que fazer”.

“Os consumidores compram e são muito poderosos, mas oficialmente termos um boicote não é
uma boa ideia”, acrescentou Cecilia Malmström.

As declarações da comissária europeia do Comércio surgem depois de, recentemente, alguns
países da UE – como França, Irlanda, Áustria e Luxemburgo – terem ameaçado bloquear o
processo de ratificação do acordo de livre comércio entre a União e a Organização do Mercado
Comum do Sul (Mercosul) se o Brasil não começar a cumprir as suas obrigações climáticas de
proteção da Amazônia.

A desflorestação da floresta amazônica tornou-se mais evidente devido aos incêndios de grandes
dimensões que afetaram a Amazônia em agosto passado, com os líderes mundiais,
nomeadamente europeus, a exigirem ação por parte do Brasil.

Como forma de retaliação à postura do Presidente brasileiro, Jair Bolsonaro, a Finlândia chegou a
propor, através do seu ministro das Finanças, Mika Lintila, que a UE banisse a importação de
carne bovina brasileira.

Porém, segundo Cecilia Malmström, esta pedido nunca foi feito, de forma oficial, à Comissão
Europeia.

Na entrevista à Lusa, a comissária notou também que o acordo comercial recentemente alcançado
com os países do Mercosul (Brasil, Argentina, Paraguai e Uruguai), após duas décadas de
negociações, só deverá estar em vigor dentro de dois anos, altura na qual caberá aos Estadosmembros da UE ratificá-lo.

“Estamos a elaborar o acordo, a nível legal, vamos traduzi-lo em 23 línguas e só depois o vamos
apresentar aos Estados-membros para ratificação. Aí sim caberá aos Estados-membros decidir
[se o ratificam] e penso que se [até lá] não houver desenvolvimentos na questão da Amazônia
haverá debates nalguns países”, referiu na entrevista à Lusa.

Portugal e outros Estados-membros já se mostraram contra um bloqueio comercial.
Em Portugal, são quase 1.800 as empresas que exportam para a região do Mercosul, num total de
40 mil postos de trabalho abrangidos e de 2,5 mil milhões de euros gerados por estas trocas
comerciais.

Para Cecilia Malmström, o acordo UE-Mercosul é, inclusive, uma forma de forçar o Brasil a
cumprir os compromissos assumidos no Acordo de Paris de combate às alterações climáticas,
firmado em 2015.

Hoje, a responsável vai reunir-se com o ministro dos Negócios Estrangeiros brasileiro, Ernesto
Araújo, à margem da assembleia-geral das Nações Unidas, em Nova Iorque, e nessa ocasião irá
“relembrar ao Brasil” que deve respeitar estes compromissos ambientais, segundo adiantou à
Lusa.

“Não se pode, com um acordo comercial, resolver todos os problemas do mundo, mas o acordo
com a Mercosul é um importante instrumento para forçar os nossos amigos brasileiros a fazer
aquilo a que se comprometeram porque estão comprometidos, a nível legal, com as metas
assumidas no acordo de Paris em áreas como a reflorestação e a melhoria das leis que protegem
a Amazônia”, concluiu.

A sueca Cecilia Malmström, que assumiu a pasta do Comércio em 2014, deixa o cargo no final de
outubro, sendo sucedida, na nova Comissão Europeia, por Phil Hogan. Com informações da
agência Lusa.

Pecuária.com.br