set 11 2019

Os 100 'hellos' que movem as operações da JBS no Canadá


A africana Azeb Solomon Emily posa sorridente para fotos. A cerimônia, realizada na pacata cidade canadense de Brooks, lembra bem uma formatura escolar. Mas o diploma que ela carrega orgulhosamente é de outra ordem.

Com o certificado em mãos, a funcionária da JBS comemora a obtenção da cidadania canadense, conquista também celebrada naquela tarde por outros 200 imigrantes - desde o dia 6 de setembro, são todos eles compatriotas.

Cravada no sul da Província de Alberta, a duas horas da fronteira com os Estados Unidos (ver mapa), Brooks ostenta o título de "cidade dos 100 hellos" tamanha a diversidade de imigrantes. Não à toa, o presidente do país vizinho, Donald Trump, é visto com ojeriza por autoridades como o prefeito Barry Morishita, descendente de japoneses.

A defesa dos imigrantes é também a forma de sobrevivência do município. A mão de obra estrangeira e de "novos canadenses" - forma pela qual os trabalhadores nascidos fora do Canadá preferem ser chamados - é o pilar que sustenta as operações da JBS, de longe a maior empregadora do município.

A sensibilidade da imigração para a JBS ficou evidente recentemente, quando entrou em discussão no Canadá um projeto para ampliar a renda mínima necessária para um imigrante trazer a família, recordou o prefeito de Brooks, em entrevista a um grupo de jornalistas brasileiros. Na ocasião, coube ao diretor de recursos humanos da JBS no Canadá, o etíope Yonathan Negussie, acionar as autoridades, incluindo o deputado Martin Shields, do Partido Conservador. Os esforços tiveram resultado, e a possibilidade perdeu força.

"Esta cidade seria outra sem esse frigorífico", argumenta o gerente-geral da unidade, o brasileiro Célio Fritche. Tecnicamente, o abatedouro está localizado no condado de Newell, que circunda Brooks. Mas a geração de empregos atende principalmente os habitantes do município comandado por Morishita.

Responsável por 35% da produção de carne do Canadá e com faturamento anual superior a US$ 1,5 bilhão, o abatedouro da JBS no país emprega 2,6 mil pessoas, número representativo para um município com menos de 15 mil habitantes.

Na sexta-feira, a reportagem do Valor conheceu as instalações da JBS e pode constatar que a maior parte da mão de obra é nascida fora do Canadá - há 120 nacionalidades diferentes. Devido às políticas de recursos humanos, a JBS não divulga a distribuição dos funcionários por local de nascimento. Para todos os efeitos, todo trabalhador é tratado como um "local" - mesmo se estrangeiro com o visto de permanência, caso da maior parte.

No dia a dia, a manutenção da mão de obra é um dos principais desafios da JBS em Brooks. A atividade, sobretudo no chão de fábrica, não é atrativa para os canadenses. Ser um desossador de carcaças é por vezes penoso, além de demandar destreza para não desperdiçar carne e prejudicar a rentabilidade.

Para recrutar funcionários, a JBS mantém programas para "importar" trabalhadores de outros países, como Filipinas, México, Ucrânia, China e Brasil. Diferentemente dos EUA, onde a indústria frigorífica enfrenta muitas dificuldades para trazer estrangeiros, no Canadá o governo é mais aberto, embora também tenha limites. Por ano, 10% da mão de obra contratada pode ser importada. Não há limitação para estrangeiros que já tenham visto de permanência do Canadá.

De acordo com Fritche, gerente do frigorífico, a JBS conseguiu reduzir a rotatividade drasticamente. No início de 2013, quando comprou a unidade do grupo canadense Nilsson Bros, a rotatividade beirava os 45%. Atualmente, o índice é de 18%. Trata-se de um desempenho melhor que o registrado nas plantas da empresa brasileira nos Estados Unidos, ressalta o executivo, que antes de liderar a fábrica canadense trabalhou na reestruturação da Swift nos EUA.

Entre os programas de atração de trabalhadores do exterior para o Canadá, o dedicado ao Brasil é o mais emblemático. Desde 2016 em vigor, o "JBS Sem Fronteiras" é voltado para os desossadores que atuem há pelo menos um ano em um dos 35 frigoríficos da companhia no país. Atualmente, há cerca de 40 brasileiros trabalhando no abatedouro de Brooks. Para se estabelecer definitivamente no país e trazer a família, os funcionários precisam ser aprovados em uma prova de inglês do governo.

Egresso do frigorífico da JBS em Campo Grande (MS), um dos maiores do gênero do país, Josimar Bezerra conta que a família recebeu com ceticismo a ideia de ser expatriado para desossar carcaças. No Brasil, a carreira do funcionário estava em franca evolução. Havia passado pelas funções de faqueiro, desossador e, nos últimos tempos, trabalhava na área de logística da JBS em Campo Grande - portanto, fora da linha de "desmontagem" de bois.

Apesar das resistências familiares, a proposta canadense o seduziu e, após ser aprovado no processo seletivo, Bezerra imigrou. E não se arrepende. "Onde eu vou andar de Dogde Ram?", brincou ele, citando a compra da caminhonete.

Do ponto de vista salarial, a mudança é palpável, especialmente porque os brasileiros costumam ser promovidos a cargos de supervisão na linha de produção. No Brasil, um desossador ganha, em média, R$ 2 mil por mês. No Canadá, a média salarial é US$ 40 mil anuais - e isso sem contabilizar o acesso gratuito à educação e saúde de qualidade reconhecida, destacou um executivo graduado da JBS.

Com sangue verde e amarelo no chão de fábrica - uma das facetas do "From Goias" ou "Frog", sistema de gestão da família Batista - em posições de destaque no frigorífico, a cultura corporativa é assimilada com mais facilidade, o que permite que os líderes de cada área tenham autonomia para tomar decisões como se fossem donos do negócios. Essa característica torna as decisões mais ágeis, reconhece o americano David Colwell, CEO da JBS Canadá.

Em períodos de turbulência internacional - a China embargou a carne canadense -, a agilidade na tomada de decisões é uma vantagem. Em negócios de escala como o de Brooks, a demora em decidir pode custar dezenas de milhões de dólares. Afinal, os números são gigantescos, desde a área externa - há um confinamento para 70 mil bovinos - até a parte interna. Por minuto, a carne equivalente a seis bois vai parar nas caixas de papelão.

Valor Econômico