jul 24 2019

Frigorífico paraguaio é oferecido à Marfrig


Segunda maior indústria de carne bovina do Paraguai, o Frigorífico Concepción está à venda e pode terminar nas mãos de grupos brasileiros. O Valor apurou que a Marfrig Global Foods avalia a possível aquisição. A JBJ Investimentos, holding do empresário Júnior Friboi - irmão de Joesley e Wesley Batista - também foi sondada por assessores da companhia paraguaia, de acordo com uma fonte. No Brasil, a JBJ é dona do frigorífico Mataboi.

A pedida inicial do Concepcíon é considerada alta, de US$ 230 milhões (cerca de R$ 865 milhões), mas já é um montante inferior aos US$ 300 milhões que o grupo pedia há alguns anos. O processo de venda ainda está em fase inicial. No auge, o frigorífico paraguaio faturou mais de US$ 400 milhões.

Procurada pela reportagem, a Marfrig não comentou. Por e-mail, o JBJ disse desconhecer "a informação de que a JBJ estaria avaliando a aquisição do referido frigorífico". O Concepción não foi localizado.

De acordo com três fontes a par do assunto, os bancos Fator e Santander podem participar da transação. O banco espanhol, aliás, chegou a enviar a possíveis interessados a oportunidade de venda ("teaser", no jargão do mercado).

Se um grupo brasileiro adquirir o Concepción, os frigoríficos sediados no Brasil ampliarão o protagonismo no Paraguai, abocanhando aproximadamente 70% das exportações de carne bovina e da capacidade de abate do país sul-americano. Hoje, a brasileira Minerva Foods lidera a indústria paraguaia de carne, com quase 45% das exportações.

No setor, avaliação é que a Marfrig é a principal candidata a comprar o Concepción. Presente no Paraguai, a Minerva dificilmente poderá avançar no país em razão de questões concorrenciais, avaliou uma fonte.

Em contrapartida, o Paraguai é o único dos países sul-americanos relevantes para a pecuária no qual a Marfrig não está presente. No Uruguai, a companhia de Marcos Molina lidera a produção de carne e desponta como a principal empresa privada. Na Argentina, é uma das maiores exportadoras.

A possível compra do Concepcíon daria à Marfrig uma plataforma relevante de exportações a partir do Paraguai. Conforme dados do Serviço Nacional de Qualidade e Saúde Animal (Senacsa) do governo paraguaio, as exportações de carne bovina do país renderam US$ 1 bilhão no ano passado. Do montante, o Concepcíon angariou US$ 291 milhões, segundo relatório de maio da agência de classificação de risco paraguaia Solventa.

Fundado em 1997, o Frigorífico Concepción é controlado por Jair Lima, brasileiro radicado no Paraguai. O empresário acumula polêmicas. No ano passado, esteve no epicentro de um escândalo político envolvendo a suspensão temporária das exportações de carne do grupo, o que prejudicou os resultados.

Inicialmente, a empresa foi proibida pelo governo paraguaio de exportar após a descoberta de cargas de carne bovina trazidas ilegalmente do Mato Grosso do Sul - o produto teria sido internalizado no país por meio da fronteira entre Ponta Porã e Pedro Juan Caballero.

Menos de um mês após a suspensão, o Paraguai aplicou uma multa e liberou as exportações do Concepcíon. Em junho do ano passado, porém, uma nova polêmica chacoalhou o país. Segundo informações divulgada à época pela mídia local, o pecuarista Carlos Trapani acusou o então ministro da Indústria, Gustavo Leite, e o ministro da Agricultura, Luis Gneiting, de cobrarem US$ 600 mil em propina para liberar as exportações do Concepcíon. Um intermediário teria pago adiantado US$ 300 mil.

Em meio às acusações, Jair Lima divulgou uma carta negando ter pago propina. O empresário também negou ter recebido qualquer pedido de suborno por representantes do governo. Na mensagem, o dono do Concepción se colocou à disposição dos investigadores e informou que o único valor que pagou foi o referente à multa de US$ 290 mil ao Ministério da Indústria.

A crise de imagem, no entanto, afetou drasticamente os negócios do frigorífico. Maior destino das exportações do Paraguai, a Rússia segue sem comprar carne bovina da empresa, conforme dados disponíveis no site do serviço sanitário da Rússia (Rosselkhoznadzor).

Com o veto russo e as restrições temporárias aplicadas pelo governo paraguaio, a receita do Concepcíon com as exportações caiu mais de 20% no ano passado, passando de US$ 392 milhões em 2017 para US$ 291 milhões no último ano, segundo relatório da Solventa.

Valor Econômico