jun 28 2019

China deverá aceitar açúcar 'transgênico'


O Brasil deu um passo importante para garantir que o açúcar que será produzido da cana transgênica desenvolvida pelo Centro de Tecnologia Canavieira (CTC) seja exportado à China, um dos principais destinos dos embarques da commodity do país. Conforme Gustavo Leite, presidente do CTC, recentemente os chineses decidiram que não vão mais avaliar a segurança da cana transgênica em si, apenas de seu açúcar.

A medida foi comemorada pelo executivo, que lembrou que o açúcar da cana transgênica é quimicamente igual ao da convencional. "Como é a substância pura, é idêntica. Para nós, é uma vitória", disse Leite ao Valor. Se a China decidisse avaliar a biossegurança da matéria-prima, o caminho seria mais lento. "Teríamos que plantar a cana na China e esperar anos para ela crescer e eles avaliarem. Não faria sentido técnico".

Em geral, a avaliação da transgenia é realizada na planta porque é o próprio organismo vivo que é comercializado - é o caso da soja em grão. Mas o CTC argumenta que o açúcar é um caso distinto, já que se trata de um produto "tirado" da planta, que não carrega os traços da modificação genética desenvolvida.

Com o caminho escolhido pelos chineses, Leite espera que a aprovação ocorra em um prazo de um a dois anos. A China costuma demorar para avaliar os pedidos para autorização de transgênicos. Em janeiro, o país deu sinal verde à importação de variedades transgênicas de soja que estavam na fila há seis anos.

Antes de impor as salvaguardas ao açúcar brasileiro - que serão retiradas em 2020 após acordo com o Brasil para evitar a abertura de um contencioso na Organização Mundial do Comércio (OMC) -, a China era o principal destino das exportações brasileiras. Representava 8% dos embarques, garantindo receita de cerca de US$ 800 milhões. No ano passado, porém, a participação caiu pela metade. Com o acordo recente, a tendência é que as vendas ao mercado chinês voltem a aumentar.

O aval de Pequim deverá dar mais vazão ao avanço do plantio de cana transgênica no Brasil, que já começou. Segundo dados do balanço financeiro do CTC na safra 2018/19, até 31 de março havia 4 mil hectares plantados no país com a planta - dez vezes mais que um ano antes, mas ainda uma gota em uma área plantada total de cerca de 10 milhões de hectares.

Segundo Leite, os produtores têm percebido vantagens financeiras na novidade. A transgenia desenvolvida inoculou o gene Bt na cana, que protege a planta da broca. A tecnologia quase zera a infestação e as perdas de produtividade causadas pelo inseto, e, com isso, os produtores também poupam gastos com agrotóxicos. Dependendo da região e do nível de manejo anterior, os ganhos giram entre R$ 1 mil a R$ 2 mil por hectare, e a produtividade da cana nas lavouras tem crescido de 5% a 15%, afirmou.

O executivo informou que mais de 100 usinas já compraram as mudas de cana transgênica e que as estão replicando em seus próprios viveiros. Por enquanto, as empresas não estão processando essa cana para produzir açúcar ou etanol. O presidente do CTC acredita que os primeiros lotes dos produtos da cana transgênica chegarão ao mercado entre dois e quatro anos.

Outro país que também está em vias de decidir sobre a importação do açúcar da cana transgênica brasileira é o Japão. Conforme Leite, tem ocorrido troca de perguntas e respostas e o processo está adiantado. "Quando você recebe a primeira leva de perguntas, já sabe se a missão vai ser grande ou pequena. Mas as perguntas foram normais", avaliou. Até o momento, EUA e Canadá já aprovaram a importação do açúcar da cana transgênica.

Paralelamente, o CTC continua desenvolvendo novas variedades. Nos próximos meses, a empresa começará a vender a segunda variedade da "cana Bt", adaptada a ambientes de produção desfavoráveis e de colheita precoce. Leite espera que, em um ano, o plantio dessas mudas já alcancem entre 4 mil e 5 mil hectares. "É uma variedade muito desejada, é a que cresce mais rápido no Brasil", disse.

No projeto de sementes, o CTC realizou testes em laboratório na safra passada e nesta começará a realizar testes em campo. "A prova de conceito foi bem sucedida. Agora tem que ver se isso acontece em campo, sob altas temperaturas, com inseto". Embora as pesquisas estejam em curso, a expectativa é começar a entregar as sementes no mercado na temporada 2021/22.

Valor Econômico