jun 20 2019

Paraná faz última vacinação e caminha para certificação de estado livre de aftosa


O Paraná está caminhando para ser o segundo estado do Brasil, após Santa Catarina, a ser certificado como área livre de contaminação por febre aftosa sem vacinação.

No final do último mês, o governo finalizou a que se pretende ser a última etapa de imunização e, em setembro, espera receber a certificação do Ministério da Agricultura, após auditoria. Até 2021, a região quer obter o reconhecimento internacional, por meio da OIE (Organização Internacional de Saúde Animal).

Órgãos ligados ao governo do estado não querem citar estimativas de aumento na produção e exportação, mas apontam que o objetivo é atingir mercados que, além de não aceitar produtos sem essa qualificação sanitária, pagam mais pela carne cujo gado não é vacinado. Além disso, a venda de aves, leite e principalmente de suínos também deve ser beneficiada.

“A febre aftosa é vista no mundo como um termômetro e, se há a certificação sem vacinação, quer dizer que o estado tem uma boa questão sanitária para outros problemas também, afetando as demais espécies além dos bovinos”, aponta Rafael Gonçalves Dias, gerente de saúde animal da Adapar (Agência de Defesa Agropecuária do Paraná). A instituição foi criada pelo estado em 2012 para auxiliar nos estudos técnicos para se obter o novo status sanitário.

“Não temos a doença, mas estamos alijados de acesso a 65% do mercado de carne de suíno do mundo, pois, apesar de a vacinação atingir só os bovinos, esses animais também ficam susceptíveis”, completa o secretário da Agricultura e Abastecimento, Norberto Ortigara. Os países a serem conquistados são principalmente Japão, Coreia do Sul, Japão, México e China.

Para o controle da aftosa, o Brasil foi dividido em blocos, que o Paraná divide com Mato Grosso, Mato Grosso do Sul e Rio Grande do Sul. Porém, após vistorias, obteve autorização do Ministério da Agricultura para antecipar a retirada da imunização. “Nosso serviço foi reconhecido como o melhor do país, por isso é prudente apartar o estado”, aponta Ortigara.

As campanhas de vacinação serão substituídas por atualizações cadastrais duas vezes por ano, o que também diminui gastos com a imunização, como aponta o secretário. Houve investimento ainda em laboratórios de controle e na criação de 33 unidades de monitoramento de entrada e saída de animais, 16 que servirão como corredores sanitários.

Ágide Meneguette, presidente da FAEP (Federação da Agricultura do Paraná), ressalta a participação dos produtores na conquista pela suspensão da vacinação e consequente pedido de certificação, o que se vem buscando há pelo menos 30 anos. Ele cita, por exemplo, a união para se criar um fundo que soma R$ 77 milhões dedicado exclusivamente a indenizações no caso de futuros abates. “Investimos pesadamente em estrutura e treinamento”, aponta.

Preocupações

Apesar do otimismo paranaense, Santa Catarina, único estado do país que hoje possui a certificação de área livre de aftosa sem vacinação, está preocupado. Entidades questionam se as normas seguidas pelo estado vizinho atendem à normativa da OIE.

“Para retirar a vacina, há muitas exigências, como aumentar a vigilância sanitária e fazer o registro de origem do animal. No programa do Paraná não há como comprovar se o animal nasceu na minha propriedade”, argumenta o secretário de Agricultura de Santa Catarina, Ricardo de Gouvêa?.

Já os produtores paranaenses atribuem os questionamentos ao temor de o estado atingir novos mercados, fortalecendo a concorrência. “Quando Santa Catarina liberou, o Paraná apoiou, então eu os chamaria de egoístas, porque querem permanecer sozinhos exportando, isso chateia muito”, resume Elias Zydek, presidente da Frimesa, uma das maiores cooperativas alimentícias do estado, e presidente do Conselho de Sanidade Agropecuária.

Outra preocupação é sobre os produtores paranaenses que recolhem bovinos principalmente no Mato Grosso para engorda em propriedades locais. Com a suspensão da vacinação, o estado deve fechar as fronteiras para a entrada de animais de regiões não certificadas. Mas, segundo o governo, o percentual de atingidos é muito pequeno —cerca de 0,5% dos produtores— e não deve atrapalhar os planos para a nova certificação. “98% está a favor, nós respeitamos esses produtores e podemos pensar em medidas compensatórias”, diz Ortigara.

Folha de São Paulo