jun 13 2019

Uma fusão das mais complexas


Enquanto os conselheiros da BRF discutem se é um bom negócio fundir as operações da empresa com as da Marfrig - operação que criaria a quarta maior empresa de proteínas do mundo, com faturamento de R$ 80 bilhões-, Pedro Parente, CEO e presidente do conselho da dona das marcas Sadia e Perdigão, evita dar detalhes sobre o andamento das discussões. Em evento em Campinas (SP), Parente se limitou a dizer que tem a aprovação do conselho de administração para que a transação continue a ser avaliada.

"Foi aprovado pelo conselho que os estudos para a fusão continuem. Não tenho condição de falar se é uma transação que tem pouca ou muita chance de acontecer", disse. Segundo ele, há muitas "complexidades" que precisam ser avaliadas. "Estamos avaliando, mas se tem chances ou não de fechar essa transação é muito complicado de dizer". Questionado sobre quais seriam essas complexidades, o executivo afirmou que é necessário confirmar a visão de que a fusão seria adequada estrategicamente.

"São duas empresas muito grandes. Embora ambas sejam de proteína animal, têm diferenças importantes na cadeia. Têm mercados diferentes que são objetos da ação comercial com essas empresas, que constituem essa complexidade", disse. "Precisa confirmar a visão de que há uma relevância estratégica para fazer essa transação. A única coisa que aconteceu foi que o conselho concedeu aval para a continuidade desses estudos".

Conforme informou o Valor, ao menos quatro conselheiros da BRF já levantaram suas ressalvas sobre o melhor caminho para a companhia ser uma fusão com a Marfrig. Conforme três fontes, os indicados pelos fundos de pensão Petros e Previ - Francisco Petros e Walter Malieni, respectivamente -, além de Luiz Fernando Furlan estariam reticentes. O ex-ministro Roberto Rodrigues, por sua vez, teria feito algumas ressalvas sobre a união. Nenhum deles, no entanto, teria "posição final e imutável", apurou a reportagem.

Sobre outras transações que estão sendo consideradas, Parente reforçou que a BRF continua trabalhando no desenvolvimento de parcerias com mercados de carne halal. "Especialmente na Arábia Saudita e Turquia. É um trabalho permanente de prospecção. Sempre estamos avaliando isso. Em algum momento, essas coisas amadurecem e nós anunciamos, mas não estamos parados", disse a jornalistas.

Fazendo um balanço das operações da BRF - maior exportadora de frango do mundo e a segunda maior produtora -, Pedro Parente destacou as dificuldades com que iniciou na companhia no ano passado. "Compramos 15% do milho do Brasil e uma parcela importante de farelo de soja. O ano de 2018 foi um ano difícil para a companhia. Terminamos o ano perdendo de quatro ou cinco a zero", disse.

Segundo ele, dentre as dificuldades houve a desabilitação de plantas para exportação da BRF, fechamento de mercado russo para as exportações de suínos em 2017, paralisação dos caminhoneiros e aumento de custos de grãos. "Somente nos grãos, tivemos custos 35% superiores em 2018 em relação ao ano anterior". Afora problemas de mercado, o executivo citou como complicador a Operação Trapaça, fase da Carne Fraca que atingiu em cheio os executivos da BRF.

"Me perguntam se a situação estava mais complicada na Petrobras ou na BRF. As duas situações estavam complexas, mas especialmente complexa na BRF porque operamos com cadeia longa. Mais de um ano para frangos e, para suínos, três ou mais", disse. O executivo assumiu a presidência da Petrobras em 2016, no auge da crise da companhia.

"Internamente, nos reorganizamos, contratamos só craques na BRF. Fizemos nosso planejamento estratégico e 2019 está começando melhor. Acho que a gente vai empatar o jogo e acho que a gente vai ganhar o jogo", afirmou. De acordo com o executivo, uma das melhores perspectivas que se abrem no mercado é a peste suína africana na China.

"Mas é muito difícil fazer uma avaliação quantitativa de como isso será benéfico. Vamos aproveitar toda a capacidade instalada para atender essa demanda, mas não há transparência em quanto a China foi atingida por esse problema e como o governo vai enfrentá-lo", ponderou Parente.

Na guerra comercial entre Estados Unidos e China, aumentam as oportunidades de o Brasil negociar com a China, acredita Parente. "Evidente, existe a complementaridade entre China e Brasil. Temos sorte de não estarmos no meio da confusão geopolítica entre China e EUA. É importante para estabelecermos ligações de longo prazo para suprir o mundo", afirmou.

Valor Econômico