jun 9 2019

Adiamento e incertezas


Foi adiado o esperado anúncio do novo Plano de Safra para 2019/20, que aconteceria na semana que terminou.

A ministra Tereza Cristina, prudentemente, decidiu não avançar o sinal porque não ficou definido o volume e o custo dos recursos a serem disponibilizados: isso depende da aprovação pelo Congresso Nacional, de projeto de lei (PLN 4) que autoriza um crédito suplementar de R$ 248,9 bilhões para a safra.

Qual é o efeito disso quanto ao ânimo dos produtores rurais? Vai atrapalhar a decisão sobre o que e quanto plantar? Vai alterar os investimentos planejados? Há outros temas muito mais relevantes para essas e outras definições, num horizonte pouco inspirador.

Vamos aos custos: com o dólar em torno de R$ 4, os insumos importados estão mais caros. Não faltam “previsões” de um câmbio pior do que isso na hora da venda da safra, e como já vivemos esse desastroso “descasamento” em outras ocasiões no passado, fica uma grande incerteza no ar. Como dizemos na roça, “cachorro mordido por cobra tem medo de linguiça”...

Mas tem mais: os preços agrícolas das principais commodities não são animadores, dados os estoques globais elevados. Mesmo com as enchentes no “corn belt” americano que atrasaram o plantio de grãos lá, sinalizando redução das colheitas de milho e soja, os preços não reagiram na proporção esperada.

Talvez isso esteja ligado à inquietação quanto aos resultados da guerra comercial entre Estados Unidos e China, que hipoteticamente beneficiaria o Brasil no curto prazo, com os asiáticos buscando maiores volumes aqui (e na Argentina). Mas, no longo prazo, o mundo dos emergentes pode perder muito mais, dado um crescente neoprotecionismo nos países mais ricos determinado pela referida guerra.

A explosão da peste suína na China e em outros países asiáticos trouxe uma crescente angústia quanto aos preços: se a China tiver mesmo de eliminar milhões de cabeças de suínos, certamente reduzirá suas gigantescas (e para nós majoritárias) importações de soja. Que fazer com a sobra da soja produzida? Exportá-la a outros países que aumentariam espetacularmente suas produções de frangos e suínos? Quanto seria o volume necessário? Ou vamos ampliar aqui mesmo essas criações para exportar carnes, o que seria maravilhoso por causa do valor agregado? Mas que aconteceria se e quando a China voltasse a ter porcos suficientes, inclusive com um novo modelo produtivo? Teríamos uma “ressaca” insuportável por aqui? Que faríamos com os milhares de pintinhos e leitõezinhos excedentes?

O que vai acontecer com o frete? Haverá outra greve de caminhoneiros na boca da colheita, disparando os custos?

Como vai ficar a questão da reforma da Previdência, essencial para o equilíbrio das contas públicas, mas insuficiente para a retomada de investimentos que gerariam empregos e maior consumo das famílias? Vai sair a reforma tributária tão importante quanto a outra? E os investimentos em infraestrutura? O cenário político doméstico permite otimismo quanto ao rápido andamento disso tudo, e mais as privatizações prometidas? Aliás, onde encontrar confiança quanto à economia global, com incertezas políticas de todo o lado?

São muitas as nuvens cinzentas no horizonte dos produtores brasileiros, que já se debatem com preços ruins para o café, a cana-de-açúcar e o leite.

O adiamento não é, portanto, um grande problema. E até pode ser a alavanca para discutir temas mais relevantes. Temos, isso sim, de montar um seguro rural efetivo, com recursos para o prêmio da ordem de alguns bilhões, que é o tamanho do nosso agro. Tais recursos podem sair da redução paulatina dos subsídios ao crédito de grandes produtores. Os juros terão de baixar com a inflação declinante, e os bancos precisam entender isso de uma vez por todas. A própria Febraban já produziu, diligentemente, uma cartilha orientando seus associados nesse sentido. O que falta para implementá-la?

Os papéis para comercialização (LCA, CRA, CDCA) criados em 2005 pelo Mapa tiveram suas gêneses na crença de que nosso modelo de crédito rural tinha os dias contados. E já se foram 14 anos bem contados.

A ministra Tereza Cristina está disposta a essa discussão, incluindo planos de safra plurianuais, que também zerariam adiamentos como o atual. Mãos a obra, todo mundo junto.

Roberto Rodrigues / O Estado de S. Paulo