jun 6 2019

Uma fusão que suscita muitas interrogações


A possível união entre BRF e Marfrig, que criaria a quarta maior companhia de carnes do mundo, pode ser um acerto estratégico no mercado de proteínas, mas, de acordo com fontes ouvidas pelo Valor nos últimos dias, do lado financeiro ainda são muitas as incertezas.

"Há, sem dúvida, uma diversificação de risco [ao se trabalhar com carnes bovina, suína e de frango], já que nesse cenário o componente cíclico é eliminado", afirmou Antonio Barreto, analista de alimentos & bebidas e agronegócio do Itaú BBA, durante evento ontem em São Paulo. Segundo ele, esse "componente cíclico" é da natureza do negócio de ambas companhias. A Marfrig é uma empresa de carne bovina e a BRF de aves e suínos, e enquanto uma vive o ciclo de baixa de preços, a outra normalmente está em alta.

Na semana passada, as empresas anunciaram que estão em negociações para a fusão. Os conselhos de administração de ambas já aprovaram o negócio e já iniciaram as conversas oficiais para delinear o acordo de fusão, como já informou o Valor. No momento, as duas companhias já analisam inclusive movimentos de longo prazo, como uma eventual abertura de capital nos EUA, onde a Marfrig controla a National Beef.

Embora a fusão seja bem vista estrategicamente, os últimos resultados das companhias suscitam questionamentos. "No caso da Marfrig, por exemplo, vimos uma queima de caixa. E isso traz uma dúvida com relação à trajetória de endividamento da companhia", afirmou Barreto.

No primeiro trimestre do ano, o clima chuvoso no Brasil, que melhorou a qualidade dos pastos e levou os pecuaristas a segurarem as vendas de gado, pressionou os resultados da Marfrig. Associado a isso, contou Marco Spada, vice-presidente de finanças e de relações com investidores da empresa na divulgação dos resultados do período, os negócios no país também foram responsáveis por uma queima de caixa - a companhia teve fluxo de caixa negativo de R$ 1,4 bilhão.

Ontem, a Marfrig comunicou o encerramento das atividades no frigorífico de Paranaíba, em Mato Grosso do Sul, e creditou a medida a uma "decisão estratégica". A companhia não confirma, mas estima-se que a capacidade de abate da planta seja de 700 bovinos por dia.

A companhia havia retomado as atividades no frigorífico em 2017, aproveitando o momento de inversão do ciclo da pecuária, com maior oferta de bois prontos para o abate.

Valor Econômico