jun 8 2019

Após seca, pastagem se recupera e dá novo impulso à pecuária baiana


Em 2015, causaram perplexidade as imagens em foto e vídeo que circularam nas redes sociais de animais mortos ou agonizando de fome em pastagens devastadas pela seca, na região de Itapetinga (sudoeste da Bahia), uma das mais tradicionais na pecuária de corte e leite do estado, com predominância das raças Gir e Nelore.

Naquele ano, segundo dados da Agência Estadual de Defesa Agropecuária (Adab), o município de Itapetinga ocupava a quinta posição em número de bovinos do estado, com 132.433 cabeças, e no ano seguinte, por conta da estiagem, caiu para a décima posição, devido à redução de 25,3% do rebanho, que foi para 98.850 bovinos.

O pecuarista Marcelo Ferraz, 60, conta que durante a estiagem “teve fazenda que choveu 215 mm o ano todo, muito baixo. Mas se chegar hoje aqui nem parece, porque a capacidade de recuperação é grande, e investimos em recuperação de pastagens”. Mas ele pondera que “o rebanho tem uma parte a recuperar”.

Com chuvas mais regulares em 2017, a “capital baiana da pecuária” passou por um momento de aceleração das atividades de recuperação das pastagens, com investimentos que chegaram a R$ 1.500 a R$ 2.000 por hectare, entre o uso de máquinas, compra de sementes, adubos e outros insumos.

“Para encontrar alguém para trabalhar com máquinas em meados de 2017 estava muito difícil. Todas as máquinas estavam sendo utilizadas por vários produtores. Foi uma corrida para recuperar as perdas, e ainda estamos fazendo isso”, afirmou Ferraz.

Área de pastagem em Itapetinga (Foto: Divulgação/Eder Resende)
Área de pastagem em Itapetinga (Foto: Divulgação/Eder Rezende)

Mudança de capim

Na região, a pastagem era antes predominada pelo capim colonião (Panicum maximum) e hoje quem impera é o Brachiaria brizantha cv. Marandu, diz a especialista em forragicultura e pastagem Renata Jardim, pesquisadora do pós-doutorado em Zootecnia da Universidade Estadual do Sudoeste da Bahia (Uesb), campus Itapetinga.

Uma das principais características dessa espécie de capim é a resistência às cigarrinhas-das-pastagens, além de ter alta produção de forragem, ser persistente e ter boa capacidade de rebrota. No clima de Itapetinga, tipicamente úmido da Mata Atlântica, a fertilidade pode chegar a 20 toneladas de matéria seca/hectare ao ano.

“Com boa adubação, ele desenvolve bem, e quando tem chuva ele cresce rápido, fica tudo verdinho”, disse a pesquisadora, informando em seguida que no período chuvoso (em Itapetinga, as chuvas mais fortes são de novembro a dezembro), é recomendável fazer a adubação nitrogenada, mas sempre com orientação profissional.

Com a melhoria no pasto, Itapetinga voltou a crescer o rebanho bovino, e hoje está com 120.739 animais, o que fez a cidade subir para 7º no ranking estadual de 2018, ano foram registradas um total de 9.945.582 de cabeças no Estado.

Veja abaixo as cidades que lideram o ranking de 2018:

Fonte: Adab/2018
Fonte: Adab/2018

Na microrregião de Itapetinga, de acordo com a Secretaria de Agricultura da Bahia (Seagri), está o maior rebanho de gado de corte e de leite no estado. São mais de 1,3 milhão de cabeças espalhadas em fazendas de 14 municípios. Não à toa, a 49ª Exposição de Itapetinga, realizada em maio, teve cerca de R$ 60 milhões em negócios.

Presidente do Sindicato Rural de Itapetinga, o pecuarista Eder Rezende informou que foram mais de 3 mil animaisna exposição (entre equinos, bovinos, caprinos e ovinos), que teve como destaque principal os eventos ligados ao cavalo da raça Mangalarga Marchador – foram cerca de 200 cavalos na pista.

“Tivemos excelentes animais em exposição, com qualidade genética muito boa. Isso é fruto da preocupação do criador em ter um bom plantel, fazer os investimentos certos e tomar os cuidados necessários com os animais, sejam eles quais forem. E isso é melhor ainda com a pastagem verdinha”, disse o pecuarista.

Animais em área de sombra do eucalipto (Foto: Divulgação/Eder Resende)
Animais em área de sombra do eucalipto (Foto: Divulgação/Eder Rezende)

Pecuária e floresta

Hoje, com a recuperação da pastagem, ocorre também a busca por alternativas econômicas, como a Integração Lavoura, Pecuária e Floresta (ILPF), programa desenvolvido pela Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária (Embrapa).

Em Itapetinga, Eder Rezende é um dos entusiastas desse programa, que no Nordeste, segundo a Embrapa, tem predominância mais dos sistemas silvipastoris.

Na região nordestina se usa principalmente a Gliricidia sepium como leguminosa, representando o componente florestal nas diversas formas de associação, e as braquiárias, como componente herbáceo.

O processo pode ser iniciado com o consórcio da leguminosa com culturas de milho e/ou feijão, repetido por 2 a 5 anos, dependendo do sistema, seguido do consórcio pasto/árvores.

Em algumas áreas é utilizado o consórcio de soja e eucalipto seguido do sistema silvipastoril após o 3º ano. Nas áreas de cana, a cada 5 anos, cultivam-se leguminosas anuais (feijão de corda), na época da reforma do canavial.

No caso do pecuarista Eder Rezende, ele preferiu plantar pés de eucalipto em fileiras em parte do pasto, o que proporcionou sombreamento aos animais. Nesse sistema, de 300 hectares, foram plantadas 700 árvores por hectare, o que gerou custo de R$ 4.000 por hectare.

Rezende reconhece que a área onde planta o eucalipto perde um pouco do capim, com o tempo (cerca de 5 anos), “mas a venda da floresta agrega valor à área”. A madeira deve ser vendida em 7 anos. Existem várias possibilidades de florestas desde nativas a outras exóticas, porém todas vão demandar mais tempo e não têm muito comércio, como o eucalipto, avalia Eder.

“A gente percebe que tem possibilidade de o pecuarista melhorar a vida dos animais, com o microclima, e melhorar a receita da propriedade. Nos três a quatro primeiros anos não há diminuição de oferta de forragem, e melhora bem o resultado da bovinocultura”, afirmou.

Fonte: Adab
Gráfico mostra que Bahia ainda não recuperou o rebanho de 2013 | Fonte: Adab

Ações oficiais

Na área governamental, a Seagri informou que pretende melhorar a qualidade e quantidade de leite e carne produzidos na Bahia, sobretudo porque a demanda do estado é maior do que a produção estadual dos dois itens.

Isso não impede, contudo, de o estado avançar nas exportações de carne bovina. Segundo o Ministério da Agricultura, esse ano o estado já enviou para fora do país 839 toneladas de carne, comercializadas a US$ 2,6 milhões. Em 2018, foram 4,5 mil toneladas de carne, a US$ 15,7 milhões.

O secretário de Agricultura, Lucas Costa, disse que para melhorar a qualidade da carne e do leite baiano quer levar mais assistência técnica para os produtores, em parcerias com as universidades, as quais “trabalham um bom material, mas ainda não é difundido em campo. Precisamos trabalhar muito forte com as universidades”.

Esta semana, Costa esteve no 2º Encontro da Carne na Bahia, realizado na Uesb de Itapetinga com o tema “A Bahia é Agro”. O evento foi organizado pelo Departamento de Tecnologia Rural e Animal da Uesb.

“Temos um polo de produção de conhecimento em Zootecnia, Engenharia e Ciência de Alimentos, Tecnologia e Ciência da Carne na Uesb. É importante que os produtores rurais conheçam as pesquisas e tecnologias desenvolvidas dentro da universidade, e a Seagri irá facilitar com que isso aconteça”, afirmou o secretário.

Para Costa, a região tem um potencial muito grande de aumento do agronegócio, com crescente aumento da demanda de alimentos para consumo interno e exportação.

A Seagri informou que apoia o desenvolvimento da atividade no estado, fazendo a articulação entre diversos órgãos, setores e agentes envolvidos para estimular a cadeia produtiva da carne, receber as demandas dos produtores em relação aos seus rebanhos e obter soluções para os gargalos da atividade agropecuária na Bahia.

Com o acesso às inovações sendo facilitados para os produtores pela secretaria, pretende-se aumentar a competitividade da agropecuária baiana e fomentar a realização de negócios.

O agronegócio representa 25% da economia da Bahia e do país, movimenta R$ 30,8 bilhões no estado e gera 181 mil empregos diretos e indiretos. A produção direta da agropecuária baiana corresponde a R$ 17,8 bilhões. O setor é responsável por 37% das exportações estaduais.

Canal Rural