jun 4 2019

Suspensos os embarques de carne à China


Depois de confirmar a ocorrência de um caso atípico do "mal da vaca louca" em Mato Grosso, o Ministério da Agricultura suspendeu ontem as exportações de carne bovina à China. A medida, de caráter preventivo, foi antecipada pelo Valor PRO, serviço de informações em tempo real do Valor.

Ainda que temporária, a suspensão dos embarques representa um duro revés para os frigoríficos. Até então, o otimismo com a demanda da China - em razão da escassez de provocada pelo surto de peste suína africana - vinha animando empresários do setor e impulsionando as ações dos frigoríficos na B3.

Ontem, a suspensão das vendas derrubou os papéis de JBS, Marfrig e Minerva Foods. A maior baixa do Ibovespa, aliás, foi registrada pela Marfrig, cujas ações caíram 4,25% - neste caso, os papéis devolveram os ganhos vistos na última sexta-feira, em reação à divulgação das negociações para uma possível fusão com a BRF. No caso da JBS, as ações recuaram 2,9%. Os papéis da Minerva, por seu vez, caíram 2,8%.

A expectativa na indústria é que a suspensão das exportações à China dure pouco tempo. Em nota, o Ministério da Agricultura informou que a emissão dos certificados sanitários para os embarques ficará suspensa até que as autoridade do país asiático avaliem as informações prestadas sobre o episódio da doença em Mato Grosso.

Os casos atípicos da enfermidade não são considerados graves. No Brasil, ocorreram outras duas vezes: em 2012, no Paraná, e em 2014, também em Mato Grosso. Geralmente, atingem animais mais velhos - desta vez, foi uma vaca de 17 anos. Nesses casos, a doença é desenvolvida espontaneamente e o risco de contaminação é mínimo. As ocorrências mais perigosas são aquelas desenvolvidas por meio da ingestão de farinha de carne e ossos. No Brasil, a alimentação dos bovinos com farinha de carne e ossos é proibida. Nunca houve um caso clássico de "mal da vaca louca" no país.

Em favor do Brasil, também pesa o fato de a carne da vaca doente não ter sido comercializada, o que evita o risco de contaminação. Em humanos, a proteína (príon) que causa o "mal da vaca louca" pode provocar a doença cerebral "Creutzfeldt-Jakob" - que é fatal.

Internacionalmente, a posição brasileira também está amparada. A Organização Mundial de Saúde Animal (OIE) manteve ontem o status de risco da doença no Brasil como "insignificante". Com essas explicações, a expectativa é que logo a China dê aval para que o Brasil continue exportando.

Em entrevista ao Valor, o secretário de Defesa Agropecuária do Ministério da Agricultura, José Guilherme Leal, afirmou que as vendas para a China foram suspensas devido a uma cláusula do protocolo sanitário entre os dois países. Para outros mercados, os embarques seguem normalmente. "Se outro país importador pedir para suspendermos também -esperamos que não ocorra -, isso estaria fora das regras da OIE ", acrescentou Leal.

Para os frigoríficos, a suspensão das vendas à China provoca transtornos, como o acúmulo de estoques. No primeiro quadrimestre, o país asiático foi responsável por cerca de 18% do volume de carne bovina exportada pelo Brasil, de acordo com dados da Secretária de Comércio Exterior (Secex) compilados pelo Ministério da Agricultura.

Outra consequência negativa é que as novas autorizações de Pequim para que abatedouros brasileiros sejam habilitados a exportar demorem mais. Na semana retrasada, o Ministério da Agricultura enviou para as autoridades chinesas uma lista com 19 abatedouros de bovinos que desejam exportar para o mercado do país asiático.

Procurada, a JBS não comentou. Em nota, a Marfrig informou que as exportações à China a partir do Brasil representam somente 0,9% do faturamento. A Minerva, por sua vez, informou que vai redirecionar as encomendas de carne bovina para os abatedouros que possui na Argentina e no Uruguai. (Colaborou Cristiano Zaia, de Brasília)

Valor Econômico