ago 20 2018

Futuro dos alimentos em debate na Europa


Cresce na Europa o debate sobre o tipo de agricultura e alimentação mais saudáveis para a população, o que tende a aumentar a pressão sobre o modo de produção em países exportadores como Brasil e Estados Unidos.

Na Suíça, que importa metade dos alimentos que consome, o governo federal programou para o dia 23 de setembro a votação de duas iniciativas populares que propõem o endurecimento de exigências ambientais e sociais na produção e na venda de alimentos. E a primeira pesquisa de opinião divulgada na sexta-feira no país sinalizou que o apoio a ambas é de entre 75% e 78%.

No país, que atualmente tem pouco mais de 8 milhões de habitantes, uma iniciativa popular, para ser submetida ao voto, precisa ter recolhido pelo menos 100 mil assinaturas de eleitores.

Apresentada pelo Partido Verde, a iniciativa "Por alimentos saudáveis e produzidos em condições justas e ecológicas" pede que o governo reforce a oferta de produtos de boa qualidade, ambientalmente sustentáveis e corretos do ponto de vista de trabalho e do bem-estar animal.

Isso significa, por exemplo, introduzir controles específicos para garantir que alimentos importados também sejam produzidos de acordo com os padrões helvéticos. Esse controle viria com aumento de tarifas de importação.

A origem, o modo de produção e os ingredientes dos alimentos deverão ser claramente indicados nas embalagens. A iniciativa também prevê estímulos à redução do impacto do transporte de alimentos sobre o ambiente e à promoção de produtos locais e sazonais.

A segunda iniciativa popular, "Pela soberania alimentar", apresentada pelo sindicato agrícola Uniterre, reivindica do governo suíço uma nova política agrícola que reflita os custos de produção, proíba os transgênicos e contemple medidas que incentivem a diversificação da oferta local, inclusive por meio de barreiras contra alimentos importados.

Na prática, os padrões helvéticos poderiam barrar, por exemplo, a entrada no país de tomate espanhol, suspeito de ser produzido a partir de condições trabalhistas precárias; do "fois gras" francês, sempre criticado pelo sofrimento dos gansos; e também da carne bovina americana que contenha hormônio.

O governo suíço diz apoiar de maneira geral as ideias colocadas em votação, mas recomendou que a população rejeite as duas iniciativas. Para tal, alegou que o país já tem padrões estritos e elevados o suficiente para garantir a boa qualidade dos alimentos consumidos.

Além disso, as iniciativas teriam como consequência um fechamento maior do mercado suíço, e o país tem que respeitar os acordos comerciais que assinou, de forma que não pode ampliar barreiras protecionistas como desejam os autores das iniciativas.

Para parlamentares de diversos partidos, grupos ambientalistas querem, de maneira dissimulada, estabelecer um "diktat" (exigência imposta pela força) com sua visão de alimentação saudável e limitar as opções do consumidor".

Segundo essa visão, uma das consequências seria a elevação dos preços dos produtos, o que estimularia o "turismo de compras". Hoje, um entre três suíços já faz compras na França, na Alemanha ou na Itália, que são países vizinhos.

Os defensores das iniciativas insistem que, apesar dos padrões mais duros impostos pelo governo da Suíça no ano passado, o país continua a importar carnes e ovos originários de produção "escandalosa e [marcada pela] exploração dos trabalhadores, sem que os consumidores sejam corretamente informados". Para eles, a situação poderá piorar se sair o acordo comercial que a Suíça quer assinar com o Mercosul.

A votação das iniciativas na Suíça reflete um debate que aumenta na Europa. Na última semana, o jornal francês "Le Monde", publicou em manchete de primeira página como os hábitos alimentares estão mudando, colocando em segundo plano temas como guerra comercial e crise na Turquia.

A reportagem realça que o mercado mundial de proteínas vegetais registra crescimento de 5,5% ao ano, em média, e que os franceses estão reduzindo o consumo de carne. Diz, ainda, que a saúde está no topo das preocupações quando cada um prepara sua refeição.

Escândalos sanitários, canais de televisão revelando bastidores da indústria agroalimentar e estudos médicos mostrando vínculos entre o que se come e doenças como obesidade, diabete ou câncer têm servido como um eletrochoque na população.

Conforme o "Le Monde", o escândalo envolvendo fórmula infantil láctea da Lactalis contaminada com salmonela ilustrou os limites do autocontrole das empresas. A presença de nitratos em salsichas ou a produção intensiva de salmão na Noruega tampouco ajudam.

A caça ao glúten, à lactose, ao óleo de palma, a produtos muito açucarados, a pesticidas como o glifosato e a outros aditivos ilustra a mudança de hábitos alimentares entre os "millennials", os jovens entre 18 e 35 anos. E os novos modos de consumo vão continuar a elevar a pressão sobre grandes produtores e exportadores de alimentos, concordam analistas.

Fonte: Valor Econômico