mar 15 2018

Pecuária sustentável: a notável aliada do meio ambiente


Segundo dados da ONU, 70% da água do mundo é destinada às atividades agropecuárias, 19% ao setor industrial e 10% ao uso domiciliar. No Brasil, assim como nos demais países em desenvolvimento, a agropecuária é o principal destino dos recursos hídricos.

A análise da pegada hídrica é um bom indicador do uso de água na pecuária, sendo equivalente à quantidade total destinada à produção de modo direto ou indireto (tabela 1).

Tabela 1.
Valor da pegada hídrica por categoria animal e sistema de produção (Gm3/ano).



*Sistema de produção que envolve pastejo e confinamento dos bovinos. Fonte: Adaptado por Scot Consultoria (Mekonnen & Hoekstra, 2010).

No Brasil, o consumo médio de água por bovinos é de 50 litros/cabeça/dia (tabela 2).
Tabela 2. Consumo de água de dessedentação por espécie em litros dia-1 animal-1.



*Considerando intervalos de temperatura de 21ºC a 32ºC. Fonte: Adaptado por Scot Consultoria (EMBRAPA, 2013).

Além do uso acentuado dos recursos hídricos, a pecuária, quando não intensiva, pode colaborar com a emissão de gases do efeito estufa (GEE).

Segundo estimativas anuais de emissões de GEE do Ministério da Ciência, Tecnologia e Inovação (MCTI), a agropecuária foi responsável por 74% das emissões do Brasil em 2016, somando as emissões diretas (22%) e as emissões pela mudança de uso da terra (51%) (SEEG, 2016).

Deste total, a atividade pecuária demonstra grande participação (figura 1). Os bovinos emitem em média 57 kg/animal de metano ao ano. Este valor pode ser reduzido a 37,7 kg/animal/ano através do aumento da eficiência dos sistemas produtivos (EMBRAPA, 2016).

Figura 1. Participação das atividades englobadas pela agropecuária nas emissões de GEE (2016)



Fonte: Elaborado por Scot Consultoria (SEEG, 2016).

Neste contexto, vale frisar que solos degradados também emitem CO2. No Brasil, dentre os 175 milhões de hectares destinados às pastagens, 45 milhões estão degradados (IHU, 2017). Este alto valor é justificado pelas trilhas formadas pelo pisoteio dos animais, associadas à defasagem ainda existente na escolha da forrageira e no manejo das pastagens.

Como consequência, a forrageira produz menos biomassa capaz de sequestrar carbono, o animal libera mais metano pela qualidade inferior do alimento e o nível de erosão e o tempo necessário para a engorda dos animais aumentam (EMBRAPA, 2011).

Intensificação da produção e o seu papel frente à sustentabilidade

Diante do cenário exposto, a pecuária, se não manejada corretamente, traz impactos negativos ao meio ambiente. Todavia, as diversas formas de intensificação do manejo podem mitigar estes danos. Dentre elas, pode-se citar o fornecimento de alimento de qualidade, o melhoramento genético animal e a Integração Lavoura, Pecuária, Floresta (ILPF).

O pasto, quando bem manejado, além de garantir o acúmulo de matéria orgânica no solo através do sequestro de carbono, também é indicado para o controle da erosão. Sendo assim, a pastagem é adequada às práticas conservacionistas, sendo mais eficiente que as culturas anuais por não revolver o solo constantemente.

Em um sistema de produção com taxa de lotação de 1 UA/ha, o bovino emite cerca de 1800 kg de CO2 eq.. Por outro lado, é possível sequestrar 3600 kg de CO2eq/ha/ano em um pasto bem manejado. Portanto, o sistema boi/pasto tem potencial de ao invés de emitir, retirar GEE do ambiente (NEIVA, 2016).

Estudos realizados pela EMBRAPA reforçam esta afirmação, constatando que a diferença líquida do balanço de carbono da pecuária é positiva. O saldo é de 7,68 toneladas/ha/ano de CO2 sequestrado em pastagens recuperadas frente à vegetação natural, o que garante o abatimento das emissões dos bovinos (EMBRAPA, 2015).

Por fim, a tecnificação da produção também é a solução para o manejo hídrico da pecuária. Para isso, é necessário monitorar o uso deste recurso de modo a melhorar a eficiência produtiva da fazenda e tornar a atividade economicamente viável e segura (EMBRAPA, 2014).

Considerações finais

A pecuária é constantemente associada aos desmatamentos e aos impactos negativos no meio ambiente. A adoção de uma pecuária intensiva e sustentável, além de aliviar o uso de recursos naturais, garante o ganho em produtividade e a queda no tempo de abate. Todavia, a adesão deste modelo produtivo ainda sofre com as barreiras impostas pela visão de negócios tradicional construída e praticada há muito tempo.

Referências

UN WATER. UN-Water Annual Report 2016. Disponível em: . Acesso em: 19/02/2018.

GTPS - Grupo de trabalho da pecuária sustentável. Estudo avalia a pegada hídrica dos confinamentos brasileiros. Disponível em: . Acesso em: 19/02/2018.

EMBRAPA. Comunicado Técnico. Consumo de água na produção animal. 2013. Disponível em: . Acesso em: 19/02/2018.

PALHARES, J.C.P. Pegada hídrica e a produção animal. Agrotec. Revista Técnico-Científica Agrícola. Junho 2012, n 3. 2012.

EMBRAPA. Notícias. Aumento na produção de carne pode diminuir emissão de gases de efeito estufa. Disponível em: < https://www.embrapa.br/busca-de-noticias/-/noticia/9068334/aumento-na-producao-de-carne-pode-diminuir-emissao-de-gases-de-efeito-estufa>. Acesso em: 19/01/2018.

SEEG - SISTEMA DE ESTIMATIVAS DE EMISSÕES E REMOÇÕES DE GASES DE EFEITO ESTUFA. OBSERVATÓRIO DO CLIMA. 2016. Disponível em: . Acesso em: 19/01/2018.

EMBRAPA. Erosão em pastagens. 2011. Disponível em: . Acesso em: 19/01/2018.

NEIVA, R.A. Mudanças Climáticas Na Mídia: Jornalismo E Agricultura No Contexto Do Aquecimento Global. 2016. Disponível em: . Acesso em: 19/02/2018.

EMBRAPA. Pegada hídrica, um novo desafio para a pecuária. Disponível em: . Acesso em: 20/02/2018.

IHU. INSTITUTO HUMANITAS UNISINOS. Emissão de gases estufa do Brasil tem maior crescimento em 13 anos. Disponível em: < http://www.ihu.unisinos.br/78-noticias/573046-emissao-de-gases-estufa-do-brasil-tem-maior-crescimento-em-13-anos>. Acesso em: 20/02/2018.

EMBRAPA. Eficiência da produção pecuária reduz emissão de gases-estufa. Disponível em: . Acesso em 20/02/2018.

Marina Malzoni

Engenheira Agrônomo

Fonte: Scott Consultoria