fev 20 2018

Tecnologia não é tudo


Ao comentar exemplos práticos da “Zootecnia de Precisão”, coube-me uma reflexão sobre o significado da ação de “ser preciso” diante de estudantes que cada vez mais se beneficiam das facilidades da automação nos processos, da informática, da comunicação via smartphones e da internet. Procurei, além de chamar atenção para os benefícios da precisão nos processos produtivos, destacar os perigos de “achismos”, como o de que a tecnologia resolve todos os problemas e daqui a algum tempo não será mais necessário decidir nada, pois o computador fará isso por nós. Acredito que apesar da grande evolução da automação, dos computadores e da inteligência artificial, se for possível algum dia, ainda está muito longe de acontecer.

algum dia, ainda está muito longe de acontecer. No entanto, um efeito colateral é a tendência ao pouco questionamento e ao desinteresse pelos detalhes dos processos produtivos, podendo surgir profissionais menos capazes de aplicar conhecimentos básicos na solução dos problemas que acontecem nas propriedades rurais. De acordo com um estudo realizado na Escócia, em um futuro próximo o acesso aos dispositivos de busca poderá ser um dos maiores responsáveis pelo aumento do risco de demência das pessoas. Do jeito que é fácil acessar ferramentas como o “Google”, sempre preferiremos recorrer a elas ao invés de usarmos o nosso cérebro, a nossa memória e o nosso poder de raciocínio.

Basta citarmos a questão adaptativa do ser humano de economizar energia para tudo, principalmente no ato de raciocinar. Se temos a opção de não precisar pensar, a tendência é ficarmos ligados no automático, com base na “lei do menor esforço”. Exemplo: É comum o estudante se sentir incomodado quando percebe que outra pessoa se sentou no seu lugar de sempre.

Resposta fácil

É mais simples aceitarmos que existam poucas opções de respostas para um problema (uma correta e a outra errada, por exemplo), pois será mais fácil decidir por aquela que julgamos ser a correta. Acho que é isso que todo produtor busca quando vai a uma reunião técnica: descobrir o que é correto para ele aplicar, não se importando com os detalhes de sua situação, que poderão resultar no insucesso da técnica, citada como infalível. Assim, situações comuns como a de ouvir alguém em quem você confia falar sobre um padrão de resposta (use inseminação artificial que funciona, o bom é sincronizar o cio dos animais, use o Compost Barn que é a solução, o melhor capim é o Mombaça, e por aí vai...), passa a ser verdade absoluta e deverá ser utilizada em qualquer situação, mesmo que possa ser totalmente absurda quando analisada para a sua realidade. Convém lembrar aqui que decidir sobre essas opções sempre será melhor se isso for feito por um técnico experiente e competente, que consiga avaliar o seu contexto e saber o que é apropriado para você. O problema é a tendência citada acima da extinção desse tipo de profissional. Mas, ainda bem que isso é só uma tendência, não é?

Junte-se a isso o aumento da complexidade quando decidimos de forma precisa sobre o correto para cada situação. Com a “precisão” com que os processos passam a ser analisados, surgirá um número bem maior de opções. O simples ato de se manejar uma pastagem, ou de tomar decisões simples como a de corrigir e adubar o solo, poderão ser analisadas em detalhes que até então não eram percebidos. Isso e muito mais é possível com o uso da zootecnia de precisão. É só entender que esses podem ser objetivos próximos para uns, porém bem distantes para outros. Isto, para não cairmos na armadilha de usar “um canhão pra matar rolinha”.

Ao escolher o caminho do sistema de produção, a decisão deve ser com base em análise individual da propriedade e do produtor. A escolha de ser “mais preciso” no processo produtivo deve ser mais uma opção técnica, diante dos objetivos do produtor e das possibilidades na propriedade. Ou seja, a automação e a precisão podem ajudar muito na eficiência do processo produtivo, mas ainda não substituirão, pelo menos por um bom tempo, a capacidade humana do raciocínio e do bom senso na hora de decidir.

Fonte: Portal DBO